Arte Cearense

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00:00 · 11.05.2014

Pintura de José Tarcísio

Todos os Santos

José Tarcísio nasceu em Fortaleza , em 1941. Artista plástico múltiplo, uma vez que percorre vários gêneros da criação: a pintura, o desejo, a escultura, além de atuar como cenógrafo e figurinista. O espírito inquieto, sempre em busca de novos caminhos, é sua marca

 

 

 

Poemas de Paula Ney

A Trança

Esta santa relíquia imaculada,

De teu saudoso amor, esta lembrança,

Da vida que fugiu, arrebatada,

Ligeira, como um sonho de criança,

Nos sonos de uma noite de bonança...

- Eu guardo, junto a mim, oh! noiva amada,

Enquanto minha vista não se cansa

De vê-la e adorá-la, extasiada!

Com o fio desta trança, tão escura,

Tão negra, sim - que até minha amargura

Lhe invejaria a cor - e tão macia...

Quais pétalas de rosa, eu teço, à noite,

Da viração sentindo o brando açoite,

- O epitáfio de minha campa fria!...

Abolição

A justiça de um povo generoso,

Pesando sobre a negra escravidão,

Esmagou-a de um modo glorioso,

Sufocando-a com a lei da Abolição.

Esse passado tétrico, horroroso,

Da mais nefanda e torpe instituição,

Rolou no chão, no abismo pavoroso,

Assombrado com a luz da Redenção.

Não mais dos homens os fatais horrores,

Não mais o vil zumbir das vergastadas,

Salpicando de sangue o chão e as flores.

Não mais escravos pelas esplanadas!

São todos livres! Não há mais senhores!

Foi-se a noite: só temos alvoradas

Fortaleza

Ao longe, em brancas praias embalada

Pelas ondas azuis dos verdes mares,

A Fortaleza, a loira desposada

Do sol, dormita à sombra dos palmares.

Loura de sol e branca de luares,

Como uma hóstia de luz cristalizada,

Entre verbenas e jardins pousada

Na brancura de místicos altares.

Lá canta em cada ramo um passarinho,

Há pipilos de amor em cada ninho,

Na solidão dos verdes matagais...

É minha terra! a terra de Iracema,

O decantado e esplêndido poema

De alegria e beleza universais!

De Viagem

Voa minh'alma, voa pelos ares,

Como o trapo de nuvem flutuante,

Vai perdida, sozinha e soluçante,

Distende as asas tuas sobre os mares!

Leva contigo os lânguidos cismares,

Que um dia acalentaste, delirante,

Como acalenta o vento roçagante,

A copa verde-negra dos palmares.

Atira tudo isso aos pés de Deus,

Lá onde brilha a luz e estão os céus

E virgens mil c'roadas de verbena.

Isto que já brilhou como uma estrela,

_ Adeus! dirás, só pertenceu a ela,

Corpo de um anjo, coração de hiena!

Sobre o autor

Paula Ney (Aracati, 1858; Rio de Janeiro,1897) foi jornalista e grande poeta lírico de seu tempo

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