Arte Cearense

Arte Cearense

ler@diariodonordeste.com.br

00:00 · 27.04.2014

Pintura de Totonho Laprovitera

Sem título

O artista plástico Totonho Laprovitera é formado em Arquitetura pela Universidade Federal do Ceará. Dedica-se ao desenho e à pintura, e sua singularidade reside na habilidade em estabelecer estranhas alianças entre as cores em contrastes. É também compositor

Poemas de Barbosa de Freitas

Consciência de Fidalgo

Em certa aldeia, há tempo, em meio do terreiro,
Brincava uma criança, inocentinha e só.
As mãozinhas se tingem do vermelho pó
E assim gasta na lida um meio dia inteiro.
Veio um dia porém, - pelo romper do dia,
Prossegue a criancinha a obra caprichosa;
Por entre o negro pó descobre a flor mimosa
Uma pedra brilhante e vai mostrá-la à tia.
A pobre da mulher ao receber o achado
- da mãozinha grácil, para a cidade corre,
E vai bater a palma à escada de um sobrado...
Lá dentro tudo é festa... Ao ver a pedra corre,
Generoso o fidalgo e diz - "vale um ducado"
-E vende-a a desgraçada e na miséria morre!

Soneto

Onde vais, onde vais, anjo celeste?
Onde vais, onde vais, ó minha esp'rança?
Por que choras assim linda criança,
Orvalhando de pranto a branca veste?
- "Onde vou, por que choro? eu tenho medo
De contar-te o martírio que me espera!...
Tu não vês esta gente?... Ó, gente fora
Que me aparta de ti... De te tão cedo!...
Quando fores, Alcindo, à madrugada,
Lá no verde pomar ver a camélia,
Ai! não chores por vê-la desfolhada!
Foi astúcia fatal de nova Ofélia,
Pra matar nosso amor, ó desgraçada!
Roubou junto ao jasmim a rosa-amélia.

Soneto

A lua vai em meio; solidão completa!
A terra inteira dorme, o pensamento,
Qual vagalume doido, friorento,
Divaga no jardim; a flor 'stá quieta.
Eu, triste e só, sem minha Haydeia nos braços
Sem ter um lenitivo... Sem ventura!
Contemplo a maravilha da natura,
Sem ver a minha estrela nos espaços!
Mulher! Mulher! O que tu és na terra!
És fantasma? És visão? És algum anjo?
Por ti a humanidade luta em guerra!
Quantas noites, por ti, anjo divino,
Em meio à escuridão hei contemplado.
O teu perfil celeste e peregrino!...

Fuisse Traditur

Recordo-me... Era quieta a lúbrica Veneza.
Ao tímido luzir da lua vagarosa,
Como a ave noturna a sós, silenciosa,
Atrevido parei no parque da princesa.
Corria pelo ar um célico perfume
No palácio do Doge havia inteira paz;
Alguém passava ao perto e, num esforço audaz,
Atrevi-me a chamá-lo e suplicar-lhe o lume.
Mas... Qual o meu espanto, a convulsão de pejo!
Quando ao vulto cheguei-me, reconheço e vejo,
Ser meu eterno inimigo, o meu atroz rival!...
- Cavalheiro, lhe disse, - agora! tudo é ermo...
Sobre a nossa disputa aqui ponhamos termo!
E... O corpo do infeliz sumiu-se no canal..
 

Barbosa de Feitas (1860-1883)
foi um dos mais poetas mais laureados em sua geração

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.