Matéria-1317577

Arte Cearense

ler@diariodonordeste.com.br

01:03 · 14.09.2013
Pintura de Fernando França

Sem título

O artista plástico Fernando França tem, em especial, nos últimos tempos, conquistado a admiração dos amantes da criação pelo singular percursos que faz por diversas experiências

Contos de Paulo de Tarso Pardal

Solta a Fita


Assistir às novelas pela TV, em casa, com todo mundo conversando e fazendo zoada é uma coisa. Outra é ver filme: uma tela imensa (Rodrigo José tinha apenas 5 anos), no meio da quadra de futebol, cheia de gente, à noite, nenhum irmão por perto, só um senhor alto (cabeludo e barbudo, dando ordens, gritando e mexendo nos aparelhos), que veio se sentar justamente no banco de cimento, bem do seu lado, o mesmo senhor que berrou para outro, Solta a fita, e tudo começou. Corisco e Dadá. As falas dos cangaceiros eram parecidas com a sua. No início, até divertido, o filme comprido, grande, imenso, todo mundo se divertindo (havia uns 30 meninos do tope dele), mas a tensão foi aumentando, quando as mortes chegaram e se sucediam numa espantosa violência, muito diferente da TV. Cada cena, uma peixeirada no pescoço de alguém e sangue jorrando volumoso e grosso. Gritos, gritos, mulheres chorando, crianças correndo, pernas ensanguentadas. Foi aí que Rodrigo José encostou-se mais no senhor alto, cabeludo e barbudo, que dera ordens, gritara alto e que mexera nos aparelhos, e segurou-lhe, com força, o dedo mindinho.

Sacola de Pão

Dizem que fome é como você estar diante do inimigo mortal: ou mata ou morre, não há outra alternativa, e, se a fome já vem de muitos dias, tipo, assim, três, só bebendo água de torneira, porque aqui ninguém mais abre a porta para oferecer um copo d´água a ninguém, o mais que Zélia Orleans y Bragança (sobrenome, por sinal, até pomposo, para tanta pobreza) pôde fazer naquele dia infeliz ela fez: só atravessou, correndo, a Avenida do Imperador, para agarrar, com toda a vontade que ainda tinha - outro mendigo já também se dirigia para o mesmo ponto -, o pão que um transeunte deixou cair da sacola, porque o ônibus ainda vinha longe, e mulheres do tipo de Zélia de Queiroz (sobrenome até pomposo, para tanta pobreza) atravessam correndo a avenida, sem olhar para o outro lado.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.