Matéria-1296654

Arte Cearense

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00:08 · 27.07.2013
Pintura de Aldemir Martins

Sem título

Aldemir Martins nasceu na cidade de Aurora, aos 8 de novembro de 1922, tendo falecido em São Paulo, aos 5 de fevereiro de 2006. Dedicou-se, com muito fôlego, à pintura, à escultura e à ilustração. A explosão de suas cores em gatos, galos e cangaceiros levou-o à consagração internacional

Poemas de Luciano Maia

Conselhos a um poeta

Escreve a tua dor, tua alegria -
elas são o estribilho do teu hino.
Tudo que seja humano te assedia:
segue o teu curso, és hoje um inquilino
da vida, mas também da morte, um dia.
Trata de apaziguar o teu destino
com o presente que doa e concilia
as horas de prazer ou desatino.
Já sabes do final: encara a morte
como o mais resolvível dos problemas.
Não culpes a ninguém por tua sorte.
e que na encruzilhada dos dilemas
uma saída sempre se recorte
à tua sina de escrever poemas.

Como em oração

Saiu sozinha e triste, a um passeio
pelo campo, já fim de primavera.
Quis confortar o coração, tão cheio
da falta de uma mínima quimera.
De um rústico barraco, erguido em meio
ao arvoredo, escuta um pranto: era
uma criança... A mãe não interveio
ao retornar de súbito. Pudera!...
Ela cantava tão feliz, mas tão
feliz, que a mãe, como a compreender
o que lhe enriquecia o coração
permitiu-lhe o filho adormecer
sobre o seu peito, como em oração.

A volúpia do soneto

O fim do dia se anunciava quieto
e o sonho navegava um pensamento.
Talvez, entre outros, fosse o mais dileto:
concluir um poema, o instante lento
em que aquele ansiar, mudo e secreto
deixasse-lhe de ser quase um tormento
e um verso se tornasse, esse objeto
entre a inspiração e o fazimento.
E permitindo que sua ideia fosse
construindo, sem pressa, o seu projeto
foi adentrando a sensação mais doce
de conseguir, no último terceto
cumprir o sonho: foi quando entregou-se
à inefável volúpia do soneto.

A ideia

Penso, desejo, tento enunciá-la:
nas distâncias da mente, fugidia
por senda tortuosa, ela resvala
como resvala a sombra, ao fim do dia.
Novamente a persigo: nesta sala
à luz alva do teto, que vigia
a minha ansiedade, a sombra rala
da Ideia outra vez me engana e adia
o encontro em que pretendo resolver
aquele enigmático teorema
da palavra pensada, e entrever
enfim, a solução desse problema
para, graças a ela, merecer
um verso e sua dádiva suprema.

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