Matéria-1288398

Arte Cearense

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00:23 · 06.07.2013
Pintura de Fernando França

Sem título

Desenhista e pintor. Fernando França é mestre em literatura brasileira pela Universidade federal do Ceará. Trata-se de um artista plástico com marcas singulares, percorrendo uma variedade temática, bem como sempre pronto a novas experiências em termo da construção de um caminho estético

Poemas de Carlos Gondim

As Cimbúlias

Irrequietas, à flor das ondas, em cardumes,
Ora róseas, abrindo as asas, ora azúleas,
Vogam na espuma argêntea, em seus
[radiosos lumes,
Como efêmeros sóis, errantes, as Cimbúlias,

Centenares, ao léu das vagas em cerúleas
Conchas, de burgalhões e remotos negrumes Surgem, bailando ao som de
[misteriosas dúlias,
Haurindo à equórea planta os estranhos
[perfumes.

Loucas, no amplo lençol das águas
[espumantes,
Brincam: - e é todo o mar refúlgida Golconda De topázios, rubis, safiras e diamantes ...

E, volúveis, ruflando as asas sobre as vagas, Em farândola ideal, elas vão de
[onda em onda:
Borboletas do oceano, adormecer nas fragas.

Maria

No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso d´água, amortece.

Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,

Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.

Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas

A uma cigarra

Teu destino é cantar, cigarra amiga,
Sem jamais te forrares da indigência
Pese-te, embora, a louca imprevidência
De quem te acoima a provida formiga.

Que importa venha o inverno, e a
[dependência
Que a ancha vizinha a recorrer te obriga!
-Se tiritas à folha que te abriga,
Não te acusa de sórdida a consciência.

Teu destino é cantar, boêmia erradia;
Se nunca em teu celeiro há pão que farte,
Goza - fartando a todos de harmonia…

E, indiferente às énfimas intrigas,
Canta - reitera o teu protesto de arte
A faina utilitária das formigas.

As Ondas

Rolando as algas e lambendo as fragas,
Passam as ondas, céleres e frias,
- Formas nervosas de Nereidas vagas,
Esculturas de espumas fugidias.

Ora em coréias, como estranhas magas,
Recamadas de argênteas pedrarias,
Entoando ritos e cuspindo pragas,
Chegam para o sabbat das ardentias.

E, cheias de ânsias, cheias de desejos,
Ora, como serpentes enlaçadas,
Germem suspiros e soluçam beijos...

E, loucas, retorcendo-se na areia,
Como outras tantas Heros desgrenhadas,
Morrem, na praia, que o luar prateia.

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