Matéria-1279607

Arte Cearense

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01:04 · 15.06.2013
Pintura de Geraldo Jesuino

José Alcides Pinto: o morcego
Geraldo Jesuíno - artista de múltiplos caminhos - é um dos mais refinados desenhistas de nossa época. Foi professor do Curso de Comunicação da Universidade Federal do Ceará, onde, dentre tantas inovações, criou uma Escola de Histórias em Quadrinhos


Poemas de Antônio Girão Barroso

Imagem simples

Você está vendo o céu muito branco

todo coberto de nuvens

o mundo por isso tão triste

todo coberto de sombras

sem um pingo de sol

sem um pingo de vida?

Minh´alma também assim está

meu coração muito triste

todo coberto de mágoas

sem um pingo de vida

se um pingo de vida.

As nuvens lá em cima descambarão

o sol virá e encherá de luz o mundo.

Eu também espero pelo sol que é você

seu doce amor simples e humano

que me virá restituir um dia a vida.


O poema

Escreverás sobre a velha mesa esquecida

[ e pobre

mais um poema perdido na noite,

[e achado horas depois.

É calada a noite, e cheia de tédio,

[mas serena e calma

como jamais a tua mão o fora. Trabalhas.

Nenhuma voz, nada perturbará

[ o trabalho de tua mão

a qual escreverá sobre o pequenino

[papel branco e frio

as palavras monotonamente pensadas

[ na noite quieta e dorminhoca.

E o poema sairá, e sobre ele descansarás

a tua angústia de duzentos anos.




Sou tão-só na noite que desce

Na noite pura sem a presença da chuva.

Entretanto o inverno chegou.

Sim, o inverno chegou.

Sou tão-só na noite só

Na noite que desce bem devagar

Tão devagar que as horas não passam

Sem que eu me aperceba do barulho que façam.

Sou tão-só tão-só

Que a música da vida

Não me vem senão através

Do tic-tac do relógio.


O morcego

Não te posso dizer: repelente animal

Ave negra da noite

Ó sabujo, ó consciência

Como te chamou um dia um poeta.

Pois tu me despertas quando estou a dormir

E o verso vem, essa loucura de poesia

Danação de muitos, ó morcego.

Vejo-te sujando a minha cama

E espancando as paredes do meu quarto.

Tu pareces um poeta indormido nas noites

Rude animal de asas negras

E de boca faminta.

És tu, sim, que me acordas ao dormir!

Tu me dás a consciência do sono perdido

Mas quando vem a madrugada eu olho a rua

E te procuro no quarto e não te enxergo mais.

Tu foges, morcego, consumação da noite negra

Geratriz do mistério da poesia.

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