Matéria-1276867

Arte Cearense

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01:09 · 08.06.2013
Escultura de Sérvulo Esmeraldo

Sem título

S
érvulo Esmeraldo é um dos artistas brasileiros de maior projeção no espaço internacional das obras de arte. Uma das marcas de sua criação artística reside no rigor geométrico e na versatilidade com que percorre caminhos os mais diversos, e sempre com composições singulares

Poemas de Alf. Castro

Psicologia do adeus

Tempo de febre, tempo de loucura,

Esse tempo desfeito tão depressa,

Em que tua alma arrebatada e pura

Me vinha em festa, cheia de promessa.

Tempo de anseios, tempo de ventura,

Em que os teus sentimentos punhas nessa

Força que dava à minha mão, segura

No adeus, à tua. Era a paixão - confessa!

Era a paixão, que em teu olhar brilhava,

De radiosas visões de enchendo a vida,

Dos meus desejos te fazendo escrava.

Hoje, num gesto todo indiferente,

Tomando a minha mão na despedida,

Dás-me as pontas dos dedos, frouxamente.

Pomo de Asfaltite

Pobre de ti! Jamais o cobiçado fruto

Há de, alegre, colher no galho que balança:

alta é a fronde que o tem, veludo

[e impoluto,

E és pequeno demais. Tua mão não o alcança!

Não poderes crescer e avultar um minuto

Para tirá-lo! Em vão, que a viridente frança

Há de crescer também e - ó desespero e luto!

Há de o pomo fugir à tua mão que avança.

Mas pudesse colhê-lo... Em breve,

[quando fosses

Mordê-lo, em tua boca ansiosa,

[que o reclama,

Prelibando o sabor dos seus gomos tão doces,

Esse fruto, de pele em sangue e ouro

[embebida,

Desfazendo-se em fel, desfazendo-se

[em lama,

Havia de amargar por toda a tua vida!

Cena marinha

Nadando acaso, sobre a emaranhada teia

Das algas, dos corais, dos pólipos gigantes,

Um tritão encontrou uma jovem sereia

Divagando, a cismar cismas de almas amantes.

Logo, o monstro marinho, inflamando-se, anseia

Por abraçá-la, e tê-la. Ela o sente. Mas, antes

Desejando morrer, foge do monstro, cheia

Do mais justo pavor dos seus olhos chispantes.

Sobre. Apressa-se mais. Chega, por fim à tona

Das águas. O tritão chega também. Desata,

Após ela, a correr - mais e mais a ambiciona.

E, na porfia, dos dois, em disparada, às soltas,

Voam. Na flor do mar há fulgores de prata

E um contínuo chofrar de águas e águas revoltas.

A estátua de Sileno

Longo tempo no parque, entre a alegre verdura,

Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,

Sileno, o velho deus, guardara a compostura

Firme na sua estátua, enramada em videira.

Mas um dia se espalma a asa pesada e escura

Da borrasca. Do céu vela-se a face inteira.

E um raio que desceu busca o parque, procura

A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.

Ao tombar destronada, a figura grotesca,

Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara

Encostada na relva umedecida e fresca.

Quem depois transitou por aquele caminho

Certamente pensou que o deus melhor ficara

Estendido no chão para curtir seu vinho.

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