Matéria-1273933

Arte Cearense

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00:48 · 01.06.2013
Pintura de Geraldo Jesuíno

Sem Título

Geraldo Jesuíno é um artista múltiplo: exímio desenhista, dedica-se, também, às Histórias em Quadrinhos. Sua transposição para esta arte dos contos de Moreira Campos é uma obra-prima. É capista e membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste. (Alane).

Poemas de Beni Carvalho

O Flamboyant

Forte, esgalhado, heril, o flamboyant, de flores
Rubras, na antiga fronde, ostentava a vitória
De púrpura triunfal, na opulência da glória
Do sol, no alto do Azul, todo em chama e fulgores.

Lutou. Venceu heróico! A conquista, na história
Vegetal, alcançou no meio de esplendores:
- Ora, altivo, pompeando à luz as rubras cores;
- Ora, verde, a cantar a Esperança ilusória!

Hoje, porém, descansa o flamboyant por terra, Sangrenta a floração, circundando-o, morrendo, À agonia mortal, que o seu martírio encerra:

- Egrégio lutador que, na refrega, exangue,
Fulminado, semelha, a cair, combatendo,
Um cadáver de herói, salpintado de sangue!

Descendo o Jaguaribe

Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita, Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.

Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O voo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja,
[ e encanta!

Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...

Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...

Paisagem interior

Na tristeza da tarde dolorida,
Na solidão da noite em que desperto,
Sinto pairar, por sobre minha vida,
Toda a monotonia de um deserto.

Ouço, do vento, a indômita corrida,
De um velho dromedário, os passos, perto;
E vejo, além, na areia incandescida,
O fantasma do luar, vagando incerto.

Depois... é o sol que vem matando tudo;
E, à imprecação da Terra, que se abrasa,
Ao Céu, de eterno azul, sereno e mudo,

Num silêncio sem fim, nada responde:
- Nem o bater levíssimo de uma asa,
- Nem o sorriso verde de uma fronde!

Magdá (um quadro de Tiziano)

Colo desnudo em flor, lábio entreaberto em prece, olhos, no alto, exorando o perdão de seu crime,
Magdalena, a ofegar, toda em febre aparece...
E o almo encanto da Vida e do Pecado exprime.

Perscruta o coração, que o Amor, voraz, oprime;
Sente-lhe a luta, e a dor que, dentro da alma, cresce... E, a cada pulsação que lhe o peito oprime,
Os delírios sensuais, em prantos, amortece.

Em fogo o olhar, tremendo a voz, a mente em brasas, Desnastrado o cabelo em ondas de veludos,
Demanda o Azul, assim, nessas formosas asas...

Enquanto, aos céus, contrita, a suplicar, exangue,
Mostra os duros punhais dos seios pontiagudos,
Ainda quentes de amor, ainda rubros de sangue!

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