Matéria-1260625

Arte Cearense

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01:54 · 27.04.2013
Pintura de Otacilio de Azevedo

Sem titulo

Otacílio de Azevedo nasceu em Redenção aos 11 de fevereiro de 1892 e faleceu na cidade de Fortaleza, aos 3 de Abril de 1978. Dedicou-se, nas artes plásticas, à pintura e ao desenho. Na área da literatura, cultivou com sensibilidade e criatividade a poesia. Integrou a Academia Cearense de Letras e fundador da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia

Poemas de Aluízio Medeiros

A piscina

Entre a gaivota e a rosa
o trampolim da saudade.
Na líquida lâmina o cloro
o soluço vespertino
da mácula turva do beijo.
Envolto no espesso remorso
fluido reflexo do rosto
vítreo olhar pecaminoso
medo, dúvida, isenção.

Entre a herança e os amigos
o trampolim da decisão.
O peixe voa na água
e intumescida aparece,
no cloro,boiando, a rosa da esperança.
Na piscina saltar repentino
ser água, cloro, peixe,
ser alga
no meio do mundo em choro.

Latifúndio devorante

Não vem ningúem me visitar.
Não vem agora, eu bem sei.
Mas muito não demorará
Latifúndio devorante
O momento de eu te assassinar.

Vou retalhar o teu corpo
em mil pedaços iguais
chamarei os camponeses
dos arredores distantes
e a cada um eu darei
um pedaço de ti mesmo
latifúndio devorante
que devorou minha vida.

Então será uma festa
sem igual no Brejo Grande
e o Sítio do Não-fazer
não será mais sítio não.
Sítio que dissiparei
para viver minha vida
mas não a que dissipei.

Lírica VII

Aqui nos encontramos, nos amamos.
Pela inefável e grande noite o vento
roçava tua face e eu te beijava. Vendo
que nós ambos nos amamos e que vamos

nós ambos pelo tempo lentos, lentos
e a nos amar constantemente estamos.
O vento passa como um lamento
a nos unir ainda mais. E amamos,

meu Deus, amamos, como nos amamos.
Por que só agora nós nos encontramos?
Agora, por que somente vendo agora

tua antiga face amada nos amamos?
Desde os velhos tempos nos amamos.
E amar-nos-emos pelo tempo afora.

Lírica XIII

A ti serei fiel por todo o sempre.
E quando um dia porventura ausente
(em nossas vidas isso tu consentes?)
de ti tu me sentires para sempre.

É que busco em mim mesmo o que me lembra
de ti em mim o que há sempre presente;
busco em mim mesmo o amor sempre crescente
de ti somente, amor, é que me lembro.

Em mim por todo o sempre o que desejo
com ardorosa calma, com vejo,
como ontem te vi, vejo-te hoje e sempre

coberta eternamente por meu beijo.
E eternamente juro: não te deixo,
a ti serei fiel por todo o sempre.

Lírica XVI

Hoje sou como sou.
Agora sou eu mesmo assim como sou.
Amanhã serei outro.
Serei eu mesmo sendo outro.

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