Matéria-1250830

Arte Cearense

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00:21 · 06.04.2013

Pintura de Chico da Silva

Sem título

O artista plástico Chico da Silva enquadra-se no primitivismo, isto é, pertence à categoria de artistas que não tiveram quaisquer relações com o ensino acadêmico da arte em que desenvolvem o seu talento. Suas cores são fortes e o traço é marcante, sem refinamento.

Poemas de Victor Cintra

Amor natural

Toquei o teu corpo com o melhor
[da minha malícia
Crespo e áspero teu desejo
Rompeu poros e desabrochou espinhos
Eras enfim meu derradeiro ninho
Sementes se lhe plantaram a pele clara
Promessas de vida em desalinho
Secaram-te a pele num desenho desfibrado
Da vida o tecido cru - o linho!
Da nave estremecida então o pouso
Tépido, espumante e mesquinho
Como um esquecido gozo.

Melodia

Então
pela porta da memória
invado a nossa saleta do piano.
Há um vapor musical e solitário,
meu coração recorda:
o ofício do coração é recordar.
Anotam-se os compassos da saudade
os remorsos remordem os remorsos
e o doce alívio da lembrança
estanca
o grito:
uma lágrima antiga expulsa das teclas a poeira solitária,
vejo a tua imagem que se balança
nítida
numa clave de sol.
Presos na liberdade do nada:
apenas a música nos envolve
num dó de saudade intensa
em si mesma.

Memória

Rua e memória: andar pelos ladrilhos
do passado, pisando as lembranças
de tosco granito e relva impura.
Transitar pela vida e representar-se
nos casarões de telhados como setas
apontando as imagens refletidas
na última chuvinha dos lagos da rua.
O canto melancólico quase agoureiro
das penas do pássaro preto
entardece meus instintos urbanos.

Esparsa

Perambulo pelas rugas daquela cidade de antes.
Ouço o som remoto das badaladas
do mesmo sino: pêndulo de lembranças
reverberando no meu cérebro notas de retorno.
Fixo-me na tua última lembrança
como o menino àquele peito magérrimo
de Biafra: minha imagem de inútil esforço,
inocente desespero.
Ainda
e quem sabe por isso mesmo
acalento-me na memória
lúcida, teimosamente hábil,
decididamente fértil que só recorda,
[repete, revisita...
Suspiro inquieto folheando as esquinas
onde outrora mimávamos o futuro.
Esqueço-me recordando o cálido suor
[do teu corpo indeciso:
éramos ontem o que nunca
[depois conseguimos ser.
Conforto-me investigando em cada pedra
algum vestígio caminhando ao lado
[das nossas marcas
pretéritas.
Aflijo-me na umidade infecunda e árida
[do mesmo antigo orvalho:
de gotas que lágrimas
duras e insensíveis - pedras que são!

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