Coluna Arte Cearense

Arte Cearense

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00:00 · 29.11.2013
Pintura de Mano Alencar

Sem Título


O artista plástico Mano Alencar constitui uma das mais importantes expressões da pintura contemporânea em nosso Estado. Após percorrer diversos caminhos, optou pelo abstracionismo - corrente que só se oferta aos eleitos

Poemas de Dimas Carvalho

XI

No endereço do sono é que repouso
Os meus pés de andarilho, penitentes,
Quando murmuro preces entredentes
Para um remoto deus do qual não ouso
Sequer dizer o nome. Onde é o descanso
Para as pernas exaustas, insistentes?
O que existe depois desses batentes
Da escada a qual desço e em que me canso?
As estradas fecharam-se, distantes.
Os meus olhos, meus braços navegantes
Num porto de Silêncio naufragaram.
Meus joelhos cegaram nos caminhos,
Minhas mãos decepadas se calaram
E somente meus pés seguem sozinhos.

IX

Ante um espelho, meu semblante sonha.
E nele sonha a imagem refletida
Desta existência minha tão perdida
-Inacabada máscara tristonha.
Dentro dum sonho, um outro nos convida
Para um novo sonhar, onde se ponha
Mais vida do que a vida mal vivida
E a qual seja a Vida há quem suponha.
Se a face que o espelho em si registra
Não é mais que o disfarce da Irrazão,
- Pista falsa que leva a falsa pista - ,
Quem me vê, não me vê. Vê a visão
De alguém que pensa que talvez avista
Algo que seja mais do que a Ilusão.

XII

Dança de fogo e vento, a minha vida.
Paisagens de sonho e de luar.
Um navio suave a flutuar,
Que para outra dimensão convida.
Esta Casa em que moro é um grande mar:
Correntes subaquáticas sentidas
Apenas pelas sombras esquecidas
Que de noite navegam devagar.
Paisagens de água e de vidraça
Em que as ondas esporeiam os pêlos
E árvores adubam a solidão.
Pelo olhar cansado a vida passa:
Fogo ancestral que queima os meus cabelos,
Vento que a Casa arrebatou do chão.

X

Mais por baixo da escada do meu corpo,
Há um túnel de sombras que floresce;
De flores e de sangue é sua messe,
E por ele navego para um Porto.
Que Porto seja esse e onde se esquece,
É coisa que não sei. Sei que, absorto,
Quando subo sou menos do que morto,
Quando desço o meu ser desaparece.
Só com a escada é que conto na viagem
Aos desertos sem fim do túnel escuro,
Onde espero encontrar-me na outra margem.
E onde espero afinal ver o Ser triste
Feito de sombras, flores, sangue puro
E que nem sei se realmente existe.

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