Coluna Arte Cearense

Arte Cearense

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00:00 · 27.12.2013
Pintura de Estrigas

Sem Título

Retrato do artista Zenon Barreto, pintado por Estrigas. Este se trata de uma das maiores expressões das artes plásticas da pintura moderna realizada no Ceará. É dono de uma versatilidade ímpar, percorrendo caminhos múltiplos, quer na leveza dos traços, quer na escolha temática

Poemas de Jorge Tufic

Voragem

Rostos que nunca vi, jacintos murchos

cujas sonatas frias me tocaram,

estes rostos não quero: eles são breves

no desfile das pálpebras cerradas.

Penso naqueles outros, familiares

rostos de toda a vida. Cataventos

da rua ainda sem nome, alagadiço

porão da infância, arpejos e trigais,

dai-me a ver novamente ou mesmo em sonho,

estes semblantes nunca repetidos,

graves alguns, mas todos inseridos

na memória dos dias voluntários.

Cemitério, talvez, dessas lembranças,

todas, em mim, são rosas e crianças.

Vênus

Dá-me, Apeles, o sangue dos teus dedos

e as cores deste mar, espuma ardente

em que Vênus ressoa e se reparte

entre deuses e bichos, céus e terras,

para que a louve, prostituta imensa

feita de orgasmo e sol. Pombos e cisnes

a conduzem nos braços da Volúpia

onde ela exerce, pleno, o seu domínio.

Mas, de repente, queda-se cativa

de um mortal como Adônis. Tão completa

me parece esta deusa que seu brilho

tem, sobre nós, a calma perspectiva

de uma fúria saciada: um simples nome

que a eternidade rútila consome.

Soneto arqueológico

Babilônio sutil, meu queixo fino

sobrevive às catástrofes; num vaso

posto a secar, meus olhos comparecem

entre os botões da noite milenária.

Sombras do Tigre, mágicas do Eufrates,

algo resta de nós. E disto apenas

tudo volta a crescer, tudo se extingue

feito o barro dos códigos severos.

Quem me decifra além dessas batalhas?

Quem me vê nos coleios da serpente?

Quem me furta do sono e me atropela?

Babilônio sutil, no auge da messe

cozinho para os reis pedras e telhas.

Nas horas vagas sou pastor de ovelhas.

Restinga´s Bar

Sou tão frágil, meu bem, que um som, de leve

pode ser-me fatal como o teu beijo:

qualquer música brega, qualquer frase

pode ser-me fatal. E, assim, não deve

a brisa andar tão próxima à tormenta,

como não deve o ritmo da valsa

transformar-se em punhais; a vida é breve

e aquilo que é demais logo arrebenta.

Sou tão frágil, meu bem, que nada pode

separar-me de ti. Teu nome é um sonho

que navega em meu sonho. Tenho pena

de tudo, algo me aflige e me sacode.

Desliga esse Gardel, bota um canário

em vez do som, da voz que me condena.

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