Coluna Arte Cearense

Arte Cearense

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00:00 · 22.11.2013

Pintura de Aldemir Martins

Aldemir Martins nasceu aos 8 de novembro de 1922 , em Aurora, tendo falecido em São Paulo aos 5 de fevereiro de 2006. Dedicou-se à pintura, à escultura e à ilustração. Suas obras tiveram grande projeção não só no Brasil como também pelo mundo

Sem Título

Poemas de Cláudio Neves

Explicação

... e que há um tigre dentro deste espelho:

um silêncio paciente atrás de nós,

um salto pronto, uma garra veloz,

sempre a morte mais rápida que o medo.

É que esse tigre salta espelho em espelho

(e num é Deus, e, num outro, não crermos)

ou se propaga em muitos num incêndio

universal de olhos e silêncios.

Mas há uma hora, sem fuga nem centro,

em que, no espelho de uma casa alheia,

no alheio estado sermos nós mesmos,

buscamos seu passo, vácuo, suspenso

anterior às casas e às estrelas.

Queremos que salte, ataque, nos receba.

Do amor antigo

Do amor antigo te direi somente

que foi antigo já quando não era

ainda amor, e, ainda amor, espera,

como um brinquedo desaparecido.

Dele não veio senão o que pressente

o antigo coração que lhe resiste,

e a quem parece exausto quando triste,

e triste (quando apenas renascido).

Ouço as palavras que me diz, e entanto

não te posso dizer se ainda as mereço,

nem sei, depois de ouvi-las, se as ouvi.

O amor antigo te darei, conquanto

não saiba se sou eu que o ofereço,

nem saiba se fio meu quanto o vivi.

Díptico

Teu corpo é belo e ao mesmo tempo inútil,

eterno, ubíquo, e ao mesmo tempo nuvem.

Púbere, exausto, e na verdade oculto.

Dorme, suspira, e na verdade escuta.

Teu corpo é belo, são, tanto mais puro

quanto mais torpe meu desejo o torne.

É informe, grave, como um quarto escuro,

e exato, simples, como um deserto.

Teu corpo é belo, ancestral, telúrico:

um veio débil, subterrâneo, absurdo,

que, já raízes, minhas mãos procuram.

Teu corpo é um sonho (alheio e lúcido)

em que me finjo ou me descubro.

Teu corpo belo, simples, nuvem, inútil.

Uma teoria do centro

É que é do mar o azul, o movimento,

e é do fogo o frio azul do centro,

e é do espelho um outro espelho dentro,

e dentro da palavra o esquecimento.

É que é do ar a obrigação do vento,

e é do gato o salto, a indiferença,

e é do polígono a circunferência

como da morte cada pensamento.

É que é da cor a luz, da chama o vento

como da voz o arrependimento

como do tempo ser um outro e o mesmo.

É que é do amor o fogo, o frio, e dentro

de seu espelho a combustão de um centro:

seu ser exato quando ainda a esmo.

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