Coluna Arte Cearense

Arte Cearense

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00:00 · 17.01.2014
Pintura de Antônio Bandeira
Sem título

O artista plástico Antônio Bandeira, além da pintura, dedicou-se, também, ao desenho. Este quadro mostra outra faceta do artista que alcançou fama e internacional a partir de sua arte abstrata. A captação de uma cena cotidiana revela sensibilidade e gosto pela simplicidade

Poemas de Virgílio Maia

Ilumiara

Quem pintou essas pedras no Sertão,
nessa tinta que nunca mais se apaga?
E para quem nosso ancestral pintava
brutas cenas de caça e aquela mão?
Tais secretos mistérios estarão
insondáveis nas cores dessas aras:
candelabros ou onças vermelhadas,
mais figuras que seguem em procissão.
Contou-me um dia uma mulher velhinha
que numa noite escura el a passou
se benzendo de medo pela Pedra.
E viu, jurou que viu, vinha sozinha,
que o enorme Gavião se desgarrou
da pintura, gritando feito a Fera.

Alvenaria

Sobre pedras se eleva este soneto,
em trabalhosa faina alevantado,
as linhas definidas no traçado
da perfeição do prumo e nível reto.
Dentre tantos eleito, põe-se ereto

rima por rima, embora recatado
ao martelar do metro faz-se alado,
opondo ao som a luz deste quarteto.
Sobre andaime de verso e de ciência
necessário a erguer prova tão dura,
deixa o pedreiro, alçado, o rés-do-chão.
E sobranceiro ao mundo, àquela altura,
Vai concluir, com brava paciência,
A obra em que balança o coração.

A arte de Audifax Rios

Uns pássaros perfuram, pintalgados,
a sisudez de uma escultura olmeca
ou por ossuda mão são levantados
poeirentos cadáveres da seca.
Sua arte tudo toca, ceca e meca,
dando voz, hora e vez aos deserdados,
na agudeza do lápis que disseca
num prisma exato os sóis apunhalados.
Não são pincéis nem tintas, mas gnomos,
que imprimem a fogo e alma cada risco,
das cítricas visões expondo os gomos.
Cada gravura é vida, não se doma,
cada um dos traços um piau arisco.
E o retinto nanquim por axioma.

Fotos

Deste antigo retrato, com firmeza,
meu avô me interroga bem de perto,
com aquela usual branda aspereza
que criança, me punha em desconcerto.
Na lapela, uma flor, que ele por certo
deixou emurchecida sobre a mesa
e do alto colarinho o branco aperto
incomodava-o um pouco, com certeza.
Tendo ao lado meu pai, que é filho seu,
certamente renovam velhos planos
de terra e gado, açudes e destino.
No fervor de seus vinte e tantos anos,
miram-me, mais novos do que eu,
e assim mesmo, para eles sou menino.

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