Coluna Arte Cearense

Arte Cearense

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00:00 · 10.01.2014
Pintura de Aldemir Martins

Sem Título

O artista plástico, ilustrador, pintor e escultor autodidata Aldemir Martins nasceu na cidade de Aurora, aos 8 de novembro de 1922, havendo falecido em São Paulo, aos 5 de fevereiro de 2006. Alcançou, com sua arte, grande renome e fama no país e no exterior

Poemasde Carlos Gondim

Noturno

Desce sobre a floresta a noite. O rio
Por um luar de topázio iluminado,
Desliza manso, lânguido, macio,
Como um píton de prata despertado.
Na mata o cabalístico assobio
Atroa de acauã, no ermo, isolado;
- Terror supersticioso do gentio,
- Enigmático pássaro execrado.
Corre um vago sussurro de lamentos,
Um salmo, um De Profundis, um saltério
Na harpa chorosa de Israel dos ventos.
E como monjas brancas que soluçam,
Pelas ogivas do convento etéreo
As magoadas estrelas se debruçam!

Maria

No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso d'água, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!

Noturno

Noite. A fronde estremece. O luar gelado
Desmaia nas corolas amorosas:
Escuto, ao longe, um piano enamorado...
Geme Chopin nas sombras misteriosas.
Espalha a brisa em torno um delicado,
Vago perfume de jasmins e rosas,
E como que anda no ar, sutilizado,
Todo um cortejo de visões radiosas.
Passa um triste sussurro de lamentos
Um salmo, um De Profundis, um saltério,
Na harpa chorosa de Israel dos ventos.
E, como monjas brancas que soluçam,
Pelas ogivas do convento etéreo,
As magoadas estrelas se debruçam...

As Cimbúlias

Irrequietas, à flor das ondas, em cardumes,
Ora róseas, abrindo as asas, ora azúleas,
Vogam na espuma argêntea, em seus radiosos lumes,
Como efêmeros sóis, errantes, as Cimbúlias,
Centenares, ao léu das vagas em cerúleas
Conchas, de burgalhões e remotos negrumes
Surgem, bailando ao som de misteriosas dúlias,
Haurindo à equórea planta os estranhos perfumes.
Loucas, no amplo lençol das águas espumantes,
Brincam: - e é todo o mar refúlgida Golconda
De topázios, rubis, safiras e diamantes ...
E, volúveis, ruflando as asas sobre as vagas,
Em farândola ideal, elas vão de onda em onda:
- Borboletas do oceano, adormecer nas fragas.

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