Coluna Arte Cearense

Arte Cearense

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00:00 · 01.11.2013
Pintura de Hélio Rola

Sem titulo

O artista plástico Hélio Rola nasceu na cidade de Fortaleza, em 1936. A marca singular de suas composições reside, antes de tudo, na escolha de cores que, uma vez unidas às inquietantes expressões formais, ganham novas significações em meio à atmosfera que envolve seus quadros.

Sonetos de Dimas Carvalho

V

Ó noite aguda, funda, noite antiga,
Noite que vem dos tempos mais remotos,
Gerada por distantes maremotos,
Ó tenebrosa, milenar cantiga.
Noite que me açoita, me castiga,
Que me abala como um terremoto
E, porque vem da casa do Ignoto,
A refletir na luz do sol me obriga.
Noite, serpente colossal, escura,
Envolvendo a cidade em seus anéis
E envenenando o ar com a sua baba;
Noite dos crimes bárbaros, cruéis,
Em que o planeta chora de amargura
E o Universo em espiral se acaba.

VI

Era uma vez um Vate peregrino
Que palmilhava a estrada do luar;
Estrada que nascia junto ao mar
E fluía dos olhos do Menino.
Quando no vale ressoava o sino
E o vento soprava devagar,
O Vate parecia flutuar,
Navegando no rio do Destino.
Ninguém nunca sonhou o sonho ousado
Que acalentava as suas noites frias
Com as histórias tristes do passado;
E o Porto derradeiro era a infância,
Onde plantou a Sombra dos seus dias,
Escondidos na bruma da Distãncia.

VII

Sonhei que estava em Roma. Uma trombeta
Da cor do céu de outubro ressoava.
E a este som de bronze se acordava
O antigo Dragão da cauda preta.
Sobre a cidade atônita um cometa
Com o furor dos deuses desabava;
E fogo e enxofre e desespero e lava
Toda a urbe cobriam e o planeta.
Das ruínas do monte Palatino
Mortífera fumaça se espalhava
E a Morte gargalhando pelas ruas.
O centauro soberbo do Destino
Com garbo marcial se empinava
Multiplicando pelo céu as luas.

VIII

Além, bem mais além dessas capelas,
Pontes e praças, catedrais e fontes,
No subsolo desses sete montes
Navegam esquecidas caravelas.
Ouço o ladrar queixoso das capelas
Que preenche o vazio do horizonte;
O uivo da loba ancestral, bramante,
Com o timbre que marcou as cidadelas.
Além, bem mais além dos ares densos
Da fumaça e do fogo dos combates,
Paira o perfume do sagrado incenso.
Cabeças baixas rumam para o exílio
E, entre a tristeza de esquecidos vates,
A tenebrosa sombra de Virgílio.

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