Coluna Arte Cearense

Arte Cearense

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00:00 · 25.10.2013
Criação de Jane Lane

Sem Título

A artista plástica Jane lane Sandes prima, sobretudo, pela incessante procura de caminhos novos por que possa, de uma maneira singular, personalíssima, expressar a sua visão de um mundo, cada vez mais, marcado pela desconstrução de toda espécie de valores. As formas, as cores, tudo entra numa desconcertante harmonia.

Sonetos de Dimas Carvalho

I

Meu coração pousou dentro do muro
Que abarca o mundo e o constrange, oprime;
Quem cometeu um tal tremendo crime
Que é mais escuro do que o próprio Escuro?
É contra mim que subsisto, duro
Como a pedra na água, e o que redime
A vida do ridículo-sublime
É esta Palavra pela qual eu juro.
Sou o ultrapassado, o obscuro,
Feito de barro, e cal, e areia, e vime;
Por mais que o verso eu torture e lime,
Ainda assim continuarei impuro.
Porque eu estou também dentro e fora
Do muro erguido por mim mesmo agora.

II

O trem chegou à última estação,
Cansado de ferrugem e maresia;
A viagem fechou a rotação,
Tal como a noite que sucede ao dia.
Os sóis de outrora que passaram sã
Pássaros que o presente silencia
E o futuro distante é o porão
Onde o bolor do tempo se extasia.
É preciso comer do vinho, e o pão
Comer, mesmo que seja em demasia;
Nesta viagem sem sentido é vão
Nosso poder de frágil profecia.
O trem que uiva madrugada a dentro
Leva-me de mim para outro centro.

III

Duas águas se cruzam em minha vida,
De maneira secreta e formidável:
Um regato distante e lamentável
E um Mar que é uma porta sem saída.
Há um Porto em comum entre essas águas
Onde se esconde o sangue das feridas;
A dor dos ostracismos, despedidas,
Todas as fundas, dolorosas mágoas.
E eu sou a ponte dúbia e invisível
Que liga as duas subterraneamente;
Sei que me espera mais além, na frente,
O momento de todos mais terrível.
As águas deste Mar, onde morri,
São as águas do Rio em que nasci.

IV

Sobre a cidade sopra o vento frio
Que vem da Lua e nossas ruas banha.
E o luar é como um grito; arranha
O Silêncio que nasce além do Rio.
Silêncio que é quase um desvario
E que os cabelos da mulher assanha;
É uma árvore colossal, estranha,
Que se esgalha sobre a Noite em cio.
Luar que vem do além, doutro sistema
Perdido numa galáxia remota;
Foi o vento sideral que a minha rota
Cravou no espaço como um diadema.
Silêncio do luar na madrugada,
Vento que entoa a canção do nada.

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