Ensaio

Côdeas: a mágica das palavras

00:12 · 23.03.2013
Existem algumas apreciações estéticas sobre o livro "Côdeas", de Carlos Augusto Viana, que não podem ser esquecidas por qualquer um que resolva analisá-lo

Refiro-me aqui aos textos da profa. Nádia Paulo Ferreira, profa. titular de Literatura da Universidade Estadual do Rio de Janeiro; também ao texto da escritora Beatriz Alcântara, da Academia Cearense de Letras; E, de modo especial, ao texto do prof. Paulo de Tarso Pardal que escreveu um admirável prefácio a esta obra, O arquiteto de imagens.

É necessário certo cuidado ao falar de Côdeas principalmente depois da existência do prefácio de Paulo de Tarso Pardal. Lá, ele disseca o livro, destacando os principais traços estéticos da obra.

Mas, como toda grande obra é inesgotável, acreditamos que conseguiremos fazer novas considerações além das já feitas no prefácio. Entretanto, optamos por fazer, antes das nossas observações, uma paráfrase parcial do que nos disse Paulo de Tarso para, em seguida, tentar acrescentar algo ao que já foi dito por ele.

A natureza do poético

A princípio, vejamos alguns aspectos apontados pelo prof. Paulo de Tarso. Comecemos destacando uma advertência que ele nos faz: "a poesia de Carlos Augusto é poesia para iniciados". Concordamos plenamente com esta assertiva do professor. As abstrações, a sofisticação dos poemas, os apelos sensoriais e o poder de inventividade com a linguagem definem, na poesia de Carlos Augusto Viana, um "estilo particular de linguagem" que, por sua vez, exige do leitor uma atenção e maturidade poéticas que nem todos têm.

Mais observações

E assim segue o texto do prefácio: "a poesia que ele (o leitor) está lendo é matéria abstrata, vaga, sem referenciais seguros do mundo real, mas é poesia que exige sua participação". O professor aponta ainda certos temas recorrentes, como, a casa, além dos espelhos, dos retratos, do vento, dos mortos etc. Destaca o forte teor de reflexões filosóficas existenciais e comenta sobre os metapoemas que compõem o conjunto dos textos do livro, afirmando que os poemas "falam da dificuldade de se achar a matéria da poesia...", e segue dizendo: "A matéria-prima do poema, portanto, tem que ser buscada em outro mundo, e o leitor tem que reinventar o poema, para entrar no universo de silêncios desse mundo desconhecido". Feitas estas retomadas do prefácio da obra, seguiremos com o intuito de destacar outros aspectos que merecem ressalva em Côdeas. Antes disso, vejamos, para saborear, um exemplo da mágica que o poeta consegue realizar com as palavras, no belíssimo poema Harpas do longe, no qual a poesia se revela como uma sofisticação sinestésica difícil, assim, de ser definida: (Texto I)

Os aspectos formais

Após o deleite com a leitura dos versos de Harpas do Longe, iniciemos a análise da obra com uma observação acerca dos aspectos formais. O autor organizou os textos deste livro em dois grandes blocos: um primeiro grupo de poemas, num total de setenta textos, seguidos e sem subdivisões. Este primeiro bloco não tem um título que o defina. Em seguida, deparamo-nos com um segundo bloco, titulado Cantares, composto de quarenta poemas. Em Côdeas, o poeta optou pelo uso tanto da forma livre quanto da forma fixa mais popular de todas as clássicas: o soneto.

As duas partes

Temos, assim, somando os do primeiro bloco aos do segundo, Cantares, um total de cento e treze poemas, dos quais dezesseis são sonetos. Esta contagem nos informa que, mesmo com o número significativo de sonetos, há predominância de poemas em forma livre. Estes números podem acenar para uma predileção do poeta em relação à forma livre, como escritor contemporâneo herdeiro dos modernistas, mas que, sem radicalismos, revela-se também exímio sonetista.

Contudo, para assegurar esta afirmação faz-se necessária uma análise no conjunto da obra do poeta. Observamos ainda que, nos sonetos, predominam as reflexões filosóficas, principalmente em torno do tempo, das ausências que povoam momentos de vida e da angustia diante da finitude humana. Além desses vieses temáticos, encontramos alguns sonetos que exploram a temática lírico-amorosa. A nossa leitura pesará exatamente sobre esta dimensão lírico-amorosa de Côdeas. É sobre ela que queremos nos debruçar, até mesmo porque constatamos que, no prefácio do livro, o prof. Paulo de Tarso não fez menção à segunda parte do livro, o Cantares, parte esta exatamente onde se concentram os poemas da lírica amorosa. Sem demérito para a lírica filosófica que predomina no livro, já bem comentada pelo prof. Paulo de Tarso, interessa-nos, neste momento, explorar de que modo se revela o dizer lírico-amoroso nos versos de Côdeas. Em primeiro lugar, pretendemos analisar os poemas de amor que estão entre os da primeira parte do livro e, em seguida, os poemas de amor que compõem a segunda parte da obra, o Cantares. Vamos, então, ao canto lírico de Côdeas.

A leitura

No primeiro bloco de textos encontramos seis poemas de temática amorosa. Sendo três escritos em forma livre e três sonetos. Como estes do primeiro bloco são poucos, comentaremos, a seguir, um a um. Depois, viajaremos pelos versos amorosos do Cantares analisando os poemas em bloco. O primeiro poema de amor que Côdeas nos oferenda é a Lição à Hilda Hilst: (Texto II)

A beleza do texto se inicia pela intertextualidade temática com a poetisa Hilda Hilst. Através da sensualidade, o poeta evoca Hilda e parece, ao mesmo tempo, homenageá-la. A linguagem é a do corpo, é a fala da pele que se verbaliza no toque dos dedos, se estende no olhar e se espraia pelo corpo, antes mesmo que este tome consciência do desejo. Há uma narrativa breve e precisa, que sugere encontro, toque, desejo, partilha e explosão prestes a acontecer.

Hermínia Lima
Colaboradora
Professora da Unifor

Trechos

TEXTO I

O alpendre emoldura a paisagem. / Um bem-te-vi ilumina a tristeza do boi. / O vento e seu rosário de areia. / Acende-se o cajueiro. / Vem a noite e, definitiva, / derrama / pianos nas pautas do rio.

TEXTO II

No princípio, / a linguagem dos dedos. / Depois, os olhos / iniciam a aprendizagem / do que o corpo - / ignorando - / deseja.

FIQUE POR DENTRO
Por que escrever sobre este livro

Côdeas, de Carlos Augusto Viana. Eis um livro sobre o qual posso falar de cátedra. Digo de cátedra, porque tive o prazer de ler esta obra, cuidadosamente, antes mesmo dela existir em forma de livro, quando, em 2006, fiz parte da comissão julgadora do Prêmio Unifor de Literatura. Importante dizer que, naquela ocasião, diferente deste momento em que escrevo agora, desconhecia completamente a autoria da obra, já que os originais foram apresentados à comissão com pseudônimos e não com os nomes dos verdadeiros autores. O fato de ter lido, analisado, julgado e escolhido este livro, como o melhor entre tantas opções de obras poéticas submetidas àquela comissão, deixa-me muito à vontade e em completa segurança para hoje, seis anos depois, registrar por escrito as minhas impressões sobre esta obra do poeta Carlos Augusto Viana. E agora, após relê-la, só confirmo e reafirmo o julgamento que fiz à época do referido Prêmio.

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