ENSAIO

Clarice Lispector: cores, formas e escritura

00:03 · 29.06.2013
Com elegância de estilo e sensibilidade de percepção, surge um retrato singular da ficcionista

A escritora Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, em 1920 e faleceu em 1977, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Em seu livro de estreia, Perto do Coração Selvagem, já revela as marcas de toda a sua criação: a presença de metáforas insólitas; o fluxo da consciência; o monólogo interior; a ruptura com o enredo factual. Suas personagens, mergulhadas em profunda introspecção, vivem numa atmosfera nebulosa, pois são castradas para a vida real.

Detalhe da capa do livro "Clarice Lispector: pinturas", de Carlos Mendes de Sousa. Neste ensaio, tanto o universo ficcional de Clarice Lispector quanto a própria escritora são retratados através de vasos comunicantes

Singularidades

Tudo isso encontra harmonia numa linguagem bem trabalhada, que toca o poético. Sua ficção concentra-se, sobretudo, nas regiões mais profundas do inconsciente, investigando, assim, os desejos e as volições que, as mais das vezes, são ignoradas até pelas próprias personagens. O espaço exterior, em suas narrativas, tem importância secundária, pois, tudo se resume à mente das personagens. Assim, o objetivo maior do texto é o momento da epifania: a personagem descobre que vive num mundo absurdo, - o que se dá por meio de um fato inusitado, a partir do qual o desequilíbrio interior provocará uma mudança radical na vida da personagem. Escreveu, dentre tantos textos, em crônicas, contos e romance, as seguintes obras: Perto do coração selvagem, O lustre, A cidade sitiada, A paixão segundo G.H., A hora da estrela, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (romances) e Laços de família (contos).

A delimitação

Umberto Eco desenvolveu a teoria da obra aberta, apontando-nos os diversos caminhos por que é possível percorrer os labirintos de uma escritura. Em "Clarice Lispector: pinturas", Carlos Mendes de Sousa lança um olhar inaugural sobre o universo da autora de "A hora da estrela": sua íntima relação com a pintura. Logo nas primeiras linhas, deparamos a grande capacidade de percepção do ensaísta: "São conhecidas muitas fotos de Clarice que nos revelam retratos extremamente belos. Mesmo em fotografias de enquadramento familiar ou social, alguma coisa aurática se impõe: diríamos uma intensidade, um alheamento que emana de seu rosto e nos devolve para o seu mundo, a sua escrita". Assim, a partir dos quadros que compuseram o ambiente doméstico ou social de Clarice Lispector, o ensaísta vai, pouco a pouco, descortinando as intrínsecas relações entre a pintura e a própria concepção de arte, em especial a literatura, que se evolva dos escritos, tanto em crônicas, quanto em contos e romances.

Elementos-chave

São extremamente intrigantes as leituras que o ensaísta faz da própria imagem de Clarice Lispector, seja através da fotografia, seja por meio do registro em desenhos ou pinturas: "Há um ponto recorrente, em alguns relatos de Clarice, quando fala dos retratos que dela fazem alguns pintores: a dificuldade em apanhar a expressão, aquilo que escapa, mas também aquilo que mais perto pode chegar do que é o de dentro da pessoa. Aquilo que em última instância é a verdade mais desejada, e também a mais simples e palpável marca da existência." Nesse sentido, uma vez retratada, Clarice Lispector parece carregar o mesmo rosário de enigmas, de estranhamento que envolve o universo de suas estranhas personagens.

Considerações finais

Como traço mais original deste livro, deparamos a análise que o autor faz das pinturas que Clarice Lispector compôs. Ele enxerga nelas o mesmo tom de alheamento, de estrangeirismo, de indecisões, tão presentes em sua escritura.

Revela-nos, neste trabalho criativo, instigante, que, nas ondulações dos movimentos dos pincéis, reproduzem-se as mesmas circularidades que invadem a angústia de suas personagens. Paisagens, seres e objetos estão, assim, sob a mesma inquietação - a paz infernal. Nesse sentido, a leitura de "Clarice Lispector: pinturas" lança mais luzes para que se possa palmilhar o obscuro mundo que envolve as personas da autora ou mesmo a tessitura de sua linguagem.

LIVRO

Clarice Lispector: pinturas
Carlos Mendes de Sousa
ROCCO
2013, 272 Páginas
R$ 39,50

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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