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Cinema chileno em perspectiva

Pesquisador Régis Frota lança, nesta quinta-feira (14), livro em que analisa a cinematografia do país andino

00:00 · 14.06.2018 por Diego Barbosa - Repórter
Régis Frota
Régis Frota: entre 2015 e 2017, o pesquisador assistiu a mais de 400 longas ( Foto: Thiago Gadelha )

Entroncado entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, o Chile é um país que, cinematograficamente falando, vem despertando a atenção do mundo nos últimos anos. A prova disso é a quantidade de passagens e prêmios que os filmes produzidos no território conseguiram alavancar em festivais como Berlim, Cannes e até Oscar.

Conforme analisa o pesquisador Régis Frota - graduado em Cinema pela Universidade Católica de Minas Gerais e professor de Direito da Universidade Federal do Ceará -, esse reconhecimento não é à toa. "O Chile é uma nação diferente e que, por isso mesmo, constrói narrativas originais", afirma ele em entrevista ao Caderno 3 em sua própria casa, recanto onde resguarda uma miríade de publicações sobre cinema e literatura, duas de suas maiores paixões.

As percepções sobre a cinematografia chilena são alimentadas pelo profissional desde 2015, quando começou a cursar pós-doutorado na Capital, Santiago. À época, Régis teve a oportunidade de conferir muitos filmes nacionais na Cineteca localizada no Centro Cultural do Palácio do Governo e ficou fascinado com o jeito de pensar e executar cinema do nosso vizinho latino-americano.

O entusiasmo com o que viu foi tanto que o fez mergulhar em uma robusta pesquisa sobre a sétima arte local, resultando no livro "Memória & Silêncio no Cinema Chileno", cujo lançamento acontece nesta quinta-feira (14), a partir das 18h, no Ideal Clube.

A obra é a oitava sobre cinema publicada pelo pesquisador, composta por diversos ensaios em que são desenvolvidas análises e perspectivas dos trabalhos audiovisuais lançados no referente país.

Na ocasião, será lançado também "Amelita e seu bichinho de estimação", livro infantil escrito por Sarissa Carneiro, filha de Régis Frota. A publicação - concebida originalmente em espanhol - conta com ilustrações do pintor e escultor cearense Descartes Gadelha.

Panorama

A trilha de conteúdos de "Memória e Silêncio" é ampla. Abarca películas lançadas desde a década de 1920 até as do novíssimo cinema chileno, mirando em títulos que desempenharam papel marcante no processo de alicerçar as bases para diferentes gerações de realizadores.

No total, Régis assistiu, entre 2015 e 2017, a mais de 400 longas-metragens para fundamentar sua pesquisa, onde constam desde nomes como Silvio Caiozzi, Pedro Sienna, Hernán Garrido e Aldo Francia - alguns dos realizadores clássicos da nação - até Matias Bize, Fernando Lavaderos, Alicia Scherson e Pablo Larraín, integrantes da nova safra de diretores.

A forma como estão estruturados os artigos merece atenção. "A partir da sinopse dos filmes, vão-se tecendo relações dos enredos com os fatos ocorridos no Chile e no território do cinema como um todo", esclarece Régis. "Além disso, apresento, desde o subtítulo, que os textos farão um comparativo retórico entre o cinema chileno e a produção audiovisual brasileira".

Seguindo essa linha, os documentários produzidos pelo brasileiro Eduardo Coutinho, por exemplo, ganham comparação com os filmes documentais do Chile (como "Chicago Boys", de Carola Fuentes e Rafael Valdeavellano, e "El Botón de Nácar", de Patricio Guzmán), bem como o cinema do mineiro Humberto Mauro é posto lado a lado com o que dirigiu Pedro Sienna.

Quem ganha um capítulo especial é o realizador Raúl Ruiz, ícone da cinematografia chilena. Falecido em 2011, deixou um legado de obras marcantes, muitas delas surrealistas e experimentais, e foi responsável por reinventar a gramática audiovisual quanto ao modo de contar histórias.

Revolucionário

No plano conceitual, o insight de Régis Frota para focar nas temáticas memória e silêncio nasceu quando da inauguração do Museu da Memória, em Santiago. O ambiente conserva 3.900 fotografias de pessoas que foram assassinadas durante o regime ditatorial de Augusto Pinochet, ocorrido entre 1973 e 1990, algo que estimulou sua curiosidade.

"No Chile, não há quase ninguém que não tenha um parente ou conhecido torturado durante essa época da ditadura. Lá, a coisa foi tremenda, até porque a população, se comparada a do Brasil, é bem menor. Me interessou saber como isso se repercutiu na maneira de fazer cinema dos realizadores locais", pontua.

Para além dessa motivação, o professor conta que o cinema chileno é revolucionário exatamente porque consegue fazer ressoar, a partir desses dois motes considerados difíceis de se trabalhar em tela, um apanhado considerável de produções inteligentes e representantes de uma época.

Comparações

Quando perguntado sobre quais as principais diferenças entre os filmes produzidos antes e depois dos anos de chumbo de Pinochet, Régis é enfático: "Na fase dos anos 1960, o cinema é extremamente político; já na fase depois de 2005, entra em cena o cinema da intimidade. Os realizadores, agora, estão interessados na vida dos personagens e no entorno deles (a namorada, a família, os dilemas do cara que sai de casa e começa a viver no mundo etc.)".

"É por isso que começa a despontar toda a ideia da homossexualidade, da diversidade, da denúncia, de todas as temáticas que dialogam com a pós-modernidade. Eles não têm mais muito interesse na vida social e política do país e fazem um retrato mais particular dos dramas humanos", reitera o autor.

As bases que fundamentam essas ideias, segundo Régis, devem provocar os leitores cearenses interessados em cinema a refletir sobre o processo de soerguimento artístico de uma nação quebrantada, bem como fazer incutir, no universo de produção cinematográfica, aquilo que para os hermanos é tão precioso.

"Acredito que a leitura do livro vem para demonstrar o cuidado técnico que o cinema chileno possui e o quanto eles foram capazes de investir em leis que beneficiassem a produção cinematográfica, o que desperta a formação de brilhantes artistas. Se antes houve a repressão, hoje há um senso de abertura muito forte nesse sentido, o que fez crescer o profissionalismo que observamos em cena", finaliza.

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