Cidade do medo - Caderno 3 - Diario do Nordeste

CINEMA/CRÍTICA

Cidade do medo

02.10.2009

Dois anos depois de "Tropa de Elite" produzir um grande tumulto na sociedade brasileira, outro filme policial, "Salve Geral", de Sérgio Rezende, provoca polêmica e reabre a discussão sobre a ação do Estado, a criminalidade e a sociedade

Salve Geral", o drama policial de Sérgio Rezende, em estréia hoje nos cinemas, arrasta atrás de si a sombra da polêmica. Não é o primeiro filme nacional a provocar a sociedade na exposição dos fatos que vão se constituindo em história, com seus personagens marginais e heróis, canalhas ou éticos, ocupando primeiro plano.

Há pouco de dois anos, "Tropa de Elite", de José Padilha, fez uma exposição devastadora das entranhas do Estado, mostrando a inoperância e a corrupção impregnadas em sua força de repressão ao crime e a situação do povo, entregue à própria sorte. O filme gerou polêmica a partir do surgimento de uma cópia autêntica no mercado pirata.

"Tropa de Elite" fez surgir um fato novo: pela primeira vez um filme brasileiro foi discutido simultaneamente nas favelas, nos morros, nas comunidades, nas rodas sociais, na esfera do Estado e principalmente, na imprensa. Como resultado, quem viu a cópia colocada no mercado pirata, também quis conferi-lo na tela grande. O efeito elevou "Tropa de Elite" ao posto de um dos dez maiores sucessos da retomada do cinema brasileiro.

"Salve Geral" herda a polêmica da obra de Padilha. Mas agora, sob outro enfoque, o da abordagem de um fato real: os ataques promovidos, no Estado de São Paulo, pelo grupo criminoso Primeiro Comando da Capital, PCC, no período de 12 a 20 de maio de 2006. As ações do bando criminoso deixaram um triste registro: 493 pessoas mortas. Para se ter uma idéia da gravidade do desafio do PCC ao Estado inoperante, esse número superou ao total de mortos e desaparecidos durante a repressão da ditadura militar que controlou o Brasil de 1964 a 1985, contabilizada em 424 pessoas.

Em maio de 2006, Sérgio Rezende, especialista em reproduzir a história do País em obras como "O Homem da Capa Preta" (1986), "Guerra de Canudos" (97), "Mauá - o Imperador e o Rei" (99) e "Zuzu Angel" (2006), assistiu pela televisão as imagens da ação do PCC e a reação da polícia. Ali mesmo decidiu contar essa história e, durante três anos, levantou o orçamento de R$ 9 milhões para a produção de "Salve Geral".

"Há em todos nós o desejo de deixar tudo atrás dos muros reforçados dos presídios e penitenciárias do Brasil", diz. "A partir de maio de 2006, isso não foi mais possível. O presídio veio às ruas, tomou São Paulo e mostrou com violência inédita o seu poder. Se era preciso ver para crer, já vimos; agora, é preciso ver para entender. Foi isso que quis fazer com ´Salve Geral´. Não simplesmente mostrar uma realidade, mas buscar revelá-la".

"Com a experiência de fazer filmes sobre personagens reais, aprendi que para contar a verdade é preciso inventar mentiras. A realidade não é reproduzível numa tela de cinema, talvez nem mesmo no documentário. Você faz pesquisas, funde personagens e histórias e procura dar o sentido geral daquilo que se propõe a revelar. Acredito que mais do que contar uma história, o cinema tem obrigação de revelar o que há por trás dela", conclui.

Assim como "Tropa de Elite", "Salve Geral" se tornou polêmico antes mesmo de ingressar nos cinemas. O crítico Luiz Carlos Merten, do "Estadão", um dos primeiros a ver o filme em sessão reservada, detectou: "vem polêmica por aí". "O único partido", escreve Merten, se referido a partidos políticos, "citado em ´Salve Geral´ é o PCC, mas não consigo deixar de pensar que ambos os filmes [refere-se à "Carandiru"] traçam um retrato bastante sinistro da política carcerária do governo. No ´Salve Geral´, é o PSDB, cujo secretário de Segurança é um daqueles personagens que faz lembrar a letra do samba de Chico (´Chama o ladrão!´). Aliás, toda a cúpula do presídio - o diretor, o delegado - é repulsiva na ficção de Sérgio Rezende. Há um divórcio entre o público e o privado e o que aparentam ser não é nem de longe o que são (e fazem). Os criminosos não são idealizados, mas são mais... Como direi? Íntegros? ´Salve Geral´ vai dar o que falar. Anotem", finaliza.

Isabela Boscov, crítica de cinema de "Veja", assinalou que o filme humaniza os personagens e transforma o PCC num partido político. "Em teoria, ´Salve Geral´ trata dos ataques que a facção criminosa Primeiro Comando da Capital promoveu em São Paulo, em 2006, quando milhares de presos ganharam indulto para o Dia das Mães e ficaram, assim, disponíveis para matar policiais, incendiar ônibus e espalhar o caos. O filme, porém, é quase tão indiferente ao pânico que os paulistanos viveram quanto os próprios bandidos. Esses, sim, são o foco do enredo. Mas não como agentes de uma ação extorsiva, e sim como um grupo desfavorecido e destratado, que se organiza para lutar pela paz, justiça e liberdade. E os ataques do Dia das Mães seriam um erro estratégico, por indispor a população contra o PCC, mas não de princípio".

Independente das discussões, "Salve Geral" foi escolhido como o representante do Brasil à disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. E, para a surpresa geral, a prestigiada revista americana "Variety", considera a obra de Rezende como uma das favoritas a ser indicada ao prêmio.

Mais informações
Salve Geral (Brasil, 2009), de Sérgio Rezende. Com Andréa Beltrão, Lee Thalor, Denise Weinberg e Eucir de Sousa. Cinemas e horários no Caderno Zoeira. 126 minutos. 16 anos.


PEDRO MARTINS FREIRE
CRÍTICO DE CINEMA

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