Poesia

Cecília Meireles: a plasticidade do discurso lírico

00:08 · 27.07.2013
Um excerto da obra completa da autora, fruto de critérios estéticos e também do gosto popular

Cecília Meireles iniciou sua trajetória literária com o livro "Espectros", publicado em 1919, inserida nos ditames da estética simbolista; sua adesão definitiva à estética modernista se daria com o livro "Viagem", publicado em 1939, uma vez que, a partir de então, cultivando com naturalidade e desenvoltura as formas livres, realizaria uma primorosa releitura dos princípios estéticos do Simbolismo, revestindo-os de novos caminhos e possibilidades de exploração temática. Cantaria, sobretudo, a perda amorosa e o sentimento de solidão.

Detalhe da capa do livro "Antologia Poética", de Cecília Meireles. Reúnem-se neste volume os poemas mais significativos de sua obra, traçando, assim, um caminho nítido para que possa ser melhor compreendida pelo leitor: música e sensibilidade

O discurso lírico de Cecília Meireles orienta-se na busca de uma extrema musicalidade, obtida a partir da exploração de múltiplos recursos expressivos, em especial o emprego de aliterações, assonâncias e rimas internas: "Finos dedos ágeis / como beija-flores, / voais sobre as sedas, / sobre as lãs macias, / com finas agulhas, / ó bordadores, / semeais primaveras / recolheis primores" (p.300). Assim, abandonou as estradas do simbolismo em direção à modernidade, desta partindo em direção ao intemporal, ao eterno, num ritmo que lembra o fluxo e o refluxo das ondas do mar, do seu íntimo mar absoluto.

A trama

Para o poeta e ensaísta Carlos Nejar, a poesia de Cecília Meireles, tendo como fulcro a memória - compreendida esta como a capacidade de repetir, isto é, de, através da reiteração, reconstruir o passado como uma ponte que se estende por sobre o presente -, desce à humanidade, "aos descalabros do tempo, à sedições da maldade e à valentia humana" e, incorporando as experiência dos revoltosos de Minas, realizou uma das mais densas obras de nossa literatura: O Romanceiro da Inconfidência: "Ai, palavras, ai, palavras, / que estranha potência, a vossa! / Todo o sentido da vida / principia à vossa porta; / o mel do amor cristaliza ; seu perfume em vossa rosa; / sois o sonho e sois a audácia, / calúnia, fúria, derrota..." (p.204). Desse modo, ela descreve o destino de Tiradentes e de seus companheiros sob a forma de romances populares, mas com variação rítmica e intenso senso de realidade, pois colhe, com sensibilidade e crueza os extremos da condição humana; no campo estilístico, ela une ao lirismo o tom descritivo, conduzindo o leitor às sombras da conspiração mineira, captando, no escuro, os olhos do delator, seguindo os seus passos até o momento em que o levará ao remorso.

A temática

A poesia de Cecília Meireles constitui a expressão de um lirismo intenso; tudo nela advém do que, extraído da experiência do real, converte-se em abstrações, sendo a expressão do que é que eterno no perene humano: a perda amorosa, o sentimento de solidão, a infância, a família, as paisagens, enfim, elementos de um cotidiano que, por um processo de releitura, torna-se vago, incorpóreo, ou seja, uma sucessão mistura de sensações: "Pus o meu sonho num navio / e o navio em cima do mar; / - depois, abri o mar com as mãos / para o meu sonho naufragar"(p.23). Como se percebe, os termos "navio", "mar", "mãos", substantivos concretos, ganham, no discurso lírico, conotações e si ligam a tudo o que é fugidio, o que enche a atmosfera do poema de um intenso desejo de fuga, de um necessidade imperiosa de livrar-se do que provoca sofrimento ao eu lírico.

Considerações finais

A leitura de Antologia Poética, de Cecília Meireles, colocará o leitor diante de uma voz singularíssima. Trata-se de um canto que nasce das profundezas do eu e que se estende sobre a vida cotidiana, com seus tentáculos que se estendem em diversas direções: "Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem triste / sou poeta". (p19). Sim, Cecília Meireles caminha pela poesia com a mesma naturalidade do voo dos pássaros e das correntezas nas montanhas. Poucos, à semelhança dela, conseguem tanta intimidade com a música e conhecem a trama que envolve as alianças que as palavras estabelecem umas com as outras, configurando, assim, o instante poético.

LIVRO

Antologia Poética
Cecília Meireles
GLOBAL
2013, 336 Páginas
R$ 45,00

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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