BIOGRAFIA

Cartola: a vida inteira banhada de verde e rosa

23:46 · 29.03.2013
Uma primorosa edição - bilíngue - capa dura, jogos cromáticos -, descortina a vida de Cartola e singularidades de sua obra

A princípio, depara-se uma sequência de fotografias que, de modo aleatório, registram diversos momentos do cotidiano de Cartola - o compositor da Mangueira e árvore do Brasil. Depois, surge o prefácio assinado por Sérgio Cabral: "Cartola, enfim, foi um ser humano muito especial. Enfrentou a pobreza quase a vida inteira e, no entanto, não conheço ninguém com um comportamento tão elegante quanto o dele. Comparo sua elegância à de Paulinho da Viola, os dois homens mais elegantes que conheci. Os dois, por sinal, admiravam um ao outro como compositores, mas desconfio de que percebiam também haver uma irmandade entre as duas almas".

Detalhe da capa do livro "Divino Cartola", de Denilson Monteiro. Não se trata tão somente da biografia do compositor, fundaddor da Mangueira, mas um retrato panorâmico da atmosfera cultural, social, econômica e política que o envolveu

Ressalta as qualidades de Denilson Monteiro como biográfico, alicerçando sua opinião no registro que o autor fez da vida de Ronaldo Bôscoli. Assim, abre as portas para que o leitor sinta-se com o coração leve para palmilhar os caminhos, tortuosos ou não, do grande artista brasileiro.

O ponto de partida

Os pais de Cartola - Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira - eram de Campos de Goytacazes, cidade que se localiza no norte do Rio de Janeiro. Já tinham duas filhas quando nasceu Agenor (tornar-se-ia Angenor) por erro do registro no cartório. Chegaram à Mangueira no final do século XIX, ocasião em que o morro contava tão somente com umas cinquentas casas.

O tempo passou e, aos onze anos, Agenor assumiu o seu primeiro emprego numa tipografia. Saiu-se bem na primeira atividade, tanto que, aos quinze anos, "já havia rodado por quase todas as tipografias do Rio de Janeiro e não tinha mais a menor paciência de encarar as prensas. O que lhe interessava, agora, era outra atividade profissional: trabalhar em obra. No caminho diário para a tipografia, via os operários trabalhando nos andaimes e jogando cantadas baratas para as moças que passavam pela rua". Com notas de humor, o autor explica destaca o sonho de trabalhar em obras como o emprego dos sonhos: trabalhar e ainda arrumar mulher. Era o que vislumbrava o ainda Agenor.

Singularidades

Mais tarde, Cartola mergulha no universo da malandragem, uma vez que, solto no mundo, sem ter de dar satisfações a ninguém, lançou-se ao desfrute da proximidade da Mangueira com a zona do Mangue - o centro da prostituição no Rio de Janeiro. Resultado: foi tomado por inúmeras doenças venéreas. Influenciado por Antunico e Artuzinho, que compunham belos sambas, Cartola arriscou-se a fazer a sua primeira composição: "Chega de demanda", em que se leem os seguintes versos: "Chega de demanda, chega / com este time temos que ganhar / somos da Estação Primeira / salve o Morro da Mangueira / chega de demanda, chega". Mas Cartola, com autocrítica, reconhece ser esta composição muito fraca: "um boi-com-abóbora", afirma. No entanto, foi esse samba que o levou, juntamente com outros amigos, à fundação da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Aliás, foi o próprio Cartola quem escolheu as cores da Escola, inspirando-se no rancho em que desfilava na sua infância, o Arrepiados, cujas cores eram verde e rosa.

Considerações finais

Este livro passeia pelo mundo de Cartola, em diversas direções: curiosidades de sua vida, as parcerias, detalhes que se evolam de determinadas composições, capas de discos de Cartola, cenas carnavalescas, partituras, letras de músicas. Não falta sequer uma crônica, em fac-símile, de Carlos Drummond de Andrade, sob o título "Cartola no moinho do mundo", em que o grande poeta e cronista tece um perfil íntimo do compositor.

LIVRO

Divino Cartola
Denilson Monteiro
CASA DA PALAVRA
2013, 208 Páginas
R$ 71,50

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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