estreia

Cárcere além das grades

Após um giro pelos principais festivais, filme cearense "Corpo Delito" estreia nos cinemas brasileiros

Neto percebe toda uma cidade repleta de desigualdades, abaixo, Ivan encara o trabalho burocrático
00:00 · 06.12.2017 por Antonio Laudenir - Repórter

Existe um Estado intransponível, cujo o descumprimento das leis resulta na aplicação de penas severas. Infelizmente, a privação da liberdade, uma das punições mais comuns, é responsável por deixar marcas indeléveis nos apenados. Além do infrator, esse processo de estar à margem do universo judicial acaba consumindo familiares e quem mais esteja por perto dessa complexa realidade.

Este mesmo Estado é vigilante. Parte de uma controversa e frágil manutenção dos valores e do status quo para aplicar suas regras. Para além de um debate amplamente necessário, resta o questionamento sobre o que nos acontece quando infringimos estes princípios. Quais sentimentos passam pela cabeça de quem tornou-se um pária, um ser estranho à coletividade?

Tais elementos circundam o longa-metragem "Corpo Delito". Dirigido pelo jornalista cearense Pedro Rocha, a obra estreia nacionalmente nos cinemas nacionais amanhã (7). Lançado pelo Projeto Sessão Vitrine Petrobras, o longa apresenta a história do detento Ivan, que deixa o presídio após oito anos de encarceramento. De volta ao convívio familiar, no caso, da esposa Gleice e da filha, Glenda, o homem de 30 anos encontra-se em liberdade condicional, porém, uma tornozeleira eletrônica o proibe de fazer qualquer trajeto que não seja o de casa para o trabalho, do trabalho para casa.

O equipamento determinado pela Justiça serve para assegurar que o apenado cumpra as oito horas diárias apertando parafusos numa fábrica. À noite, ele não pode sair de sua residência. Tal condição repercute gradualmente na maneira como o personagem enxerga e se encaixa no mundo. Internamente, Ivan passa a contestar todo este processo.

Ter uma vida social, mesmo que pela metade, e a iminência de um trabalho burocrático e insípido surgem como constatações complexas. O retorno a esta "sociedade normal" também engloba a presença de Neto, amigo de 18 anos que ele conheceu logo após sair da unidade prisional.

Narrativa

Ivan se reconhece neste amigo. Apesar de uma década mais novo, a atual realidade de Neto repercute sobre a juventude ou qualquer tipo de sonho que o protagonista deixou no passado. Nesse intervalo, a única certeza conhecida por Ivan é que violar a lei corresponde a um preço extremamente alto.

Conviver com uma liberdade monitorada intensifica estes conflitos internos. Seu corpo, de certa forma, significa apenas um ponto azul no radar da polícia. Todos os seus passos estão monitorados. Nas horas vagas, os dois curtem a semiliberdade de Ivan pela comunidade. O detento ainda é atraído pelas festas e pelas aventuras da cidade. Como se libertar dessa realidade é uma luta perene. Sem apontar erros ou escolher culpados, a câmera do diretor repercute questionamentos sobre desde quando o próprio Ivan já estava preso a uma realidade cruel e inevitável, muito antes do martelo de um juiz.

Muito dessa percepção está escancarada na arte elaborada para o cartaz da produção. No trabalho pensado por Yuri Leonardo está um pé-de-chinelo atado a uma tornozeleira eletrônica. "Uma tecnologia simples e barata, feita para se ganhar o mundo, capturada pela tecnologia avançada e cara, paga pelos cofres públicos, projetada para impor a derrota como distintivo da pobreza. O que o Ivan parece dizer em todo o filme é simplesmente isso: 'esse pé é meu!'", afirma o diretor Pedro Rocha, por meio de nota.

Enquanto peça híbrida, o filme se vale tanto de recursos do documentário observacional quanto do roteiro de ficção. O conflito e a tensão dramática da obra conduzem essa experiência aos moldes da ficção, no entanto estamos imersos a todo instante na realidade daquelas criaturas. Testemunhamos quedas, esperanças e medos. Impossível não ser sugado por fatos tão angustiantes e pesados.

A câmera é o único recurso capaz de mediar tais fatos. As lentes transpõem os becos, o cotidiano de lutas e poucas perspectivas: é o universo em que Ivan está enclausurado. Engana-se, porém, quem acha que esta narrativa é desprovida de ação (no sentido da justaposição dos acontecimentos) e dramaticidade. Situações comuns à maioria dos brasileiros como, por exemplo, visitar um parente morto no cemitério, em "Corpo Delito", ganha a crueza da realidade.

Além da direção de Pedro Rocha, o roteiro contou com assinatura de Diego Hoefel. "Corpo Delito" foi exibido no Dok Leipzig, um dos principais festivais de documentários do mundo. Além disso, o longa integrou o Festival de Tiradentes desse ano e também participou da programação da Mostra Contemporânea Brasileira do Forumdoc.BH, que aconteceu em Belo Horizonte de 23 de novembro a 3 de dezembro.

Estreia do cearense Pedro Rocha na direção de longas-metragens, a produção repercute o profundo envolvimento deste realizador com o jornalismo e com sua atuação no coletivo de mídia ativismo Nigéria. Com este grupo atuou como produtor, diretor e montador de filmes sobre direitos humanos no Brasil. Um dos seus trabalhos de destaque pelo Nigéria foi o documentário "Com Vandalismo". Na última a segunda (4), às 20h, uma sessão com debate marcou a pré-estreia do filme "Corpo Delito". O evento acontece no Espaço Itaú de Cinema, localizado Shopping Frei Caneca, em São Paulo.

Incentivo

"Corpo Delito" é um dos projetos selecionados pelo "Histórias que Ficam". Atuando como um programa de consultoria, fomento e difusão do documentário brasileiro, a atividade foi realizada pela Fundação CSN, braço social da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). O programa aposta no modelo de patrocínio a documentários criativos, no qual o financiador é um parceiro ativo na construção artística, oferecendo laboratórios de consultoria com cineastas renomados ao longo de todo o processo de realização dos filmes.

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