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Cannes: rumo à Palma

Spike Lee é saudado em Cannes com filme sobre a Ku Klux Klan e as tensões raciais de hoje nos EUA

00:00 · 16.05.2018 por Guilherme Genestreti - Folhapress
John David Washington, Topher Grace e Adam Driver em diferentes momentos de "BlacKkKlansman": diretor parte de contexto dos anos 1970 para abordar o racismo nos EUA hoje, sob o governo de Donald Trump

Com o filme "BlacKkKlansman", que estreou no Festival de Cannes nesta segunda (14), o diretor Spike Lee quer retomar o posto de maior cronista cinematográfico das tensões raciais americanas. O filme, já saudado como um dos mais relevantes da carreira do diretor de "Faça a Coisa Certa", foi ovacionado por mais de seis minutos.

Por meio da história de um policial negro que se infiltra na Ku Klux Klan, o cineasta arma um petardo contra Donald Trump, apontado no filme como corresponsável pelo acirramento do ódio branco.

Embora ambientada nos anos 1970, a produção inclui a recente marcha de supremacistas em Charlottesville, momento catártico que provocou aplausos em cena aberta.

John David Washington, filho de Denzel Washington, interpreta Ron Stallworth, novato que ingressa na polícia do Colorado durante a efervescência dos Panteras Negras.

O anúncio no jornal local de recrutamento para a KKK é a deixa para que ele aplique um trote ao telefone e se passe por um branco interessado.

Consegue com isso ludibriar o supremacista do outro lado da linha. A partir daí, com o judeu Flip (Adam Driver), cria um plano para se infiltrar na organização. O título do filme une "black" (negro) e "klansman" (membro da KKK).

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A farsa põe na roda a figura do então líder da KKK, David Duke (Topher Grace, de "That '70s Show"). No filme, o sujeito diz, literalmente, que quer trazer a "grandeza da América de volta". Soa familiar?

Esse é um dos muitos momentos em que o cineasta de 61 anos quer traçar ligações diretas entre Trump e a organização nacionalista.

Numa ponta no início da trama, o ator Alec Baldwin interpreta um desses supremacistas. A escolha não é aleatória: Baldwin hoje tem um quadro no humorístico "Saturday Night Live" em que imita o presidente americano.

Também sobram farpas para "...E O Vento Levou" (1939) e "O Nascimento de uma Nação" (1915) - marcos da história do cinema, mas ambos veículos de mensagem racista (no segundo caso, explícita).

Concorrentes

Entre os críticos americanos, "BlacKkKlansman" já é tido como forte candidato à Palma de Ouro, no sábado (19).

Concorre com outros 20 filmes, incluindo "Lazzaro Felice", da italiana Alice Rohrwacher, e "Shoplifters", do japonês Hirokazu Kore-eda, já exibidos na competição.

Rohrwacher, que venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes por "As Maravilhas" (2014), retorna ao festival com uma história de tintas surreais ambientada numa Itália rural.

Lazzaro é o jovem faz-tudo numa comunidade de agricultores de tabaco. Ali, quem dá as cartas é uma marquesa que mantém os trabalhadores em semiescravidão.

Quando Lazzaro aceita participar do plano mirabolante bolado pelo filho de sua suserana, dá início a uma sucessão de eventos insólitos, embebidos de simbolismo cristão.

Já o japonês Kore-Eda, de "Ninguém Pode Saber" e "Pais e Filhos", questiona o que forma os laços de família com o humanista "Shoplifters".

O drama acompanha o patriarca Osamu, que vive com os parentes num apartamento modesto e ganha a vida revendendo produtos furtados. Ele topa com uma menina perdida e opta por adotá-la e incluí-la no seu esquema criminoso.

Cheio de alegorias, "Lazzaro" é pouquíssimo convencional e pode não ir longe nas premiações em Cannes. Mas "Shoplifters" e seu grito dos excluídos contra o sistema contém os ingredientes que fizeram de "Eu, Daniel Blake" (2016) vencedor no festival.

Documentário

Fora da competição pela Palma de Ouro, quem retornou a Cannes foi o alemão Wim Wenders. Trouxe "Pope Francis", documentário praticamente hagiográfico sobre o papa Francisco.

Desde sua primeira cena, um sobrevoo à cidade italiana de Assis, local onde nasceu e onde está sepultado são Francisco, fica evidente o paralelo que sustentará o filme: entre o santo que renunciou à riqueza para abraçar os pobres e o pontífice progressista, vindo da periferia do mundo.

Seja falando direto à câmera, seja em pregações mundo afora (de hospitais depauperados na África ao Congresso americano), o papa tem como alvos constantes a acumulação da riqueza e a dilapidação dos recursos do planeta.

Ao optar por um enfoque secular, Wenders retrata Francisco mais como um entoador de frases feitas que seria saudado em fórum social do que como o líder religioso que precisa segurar o seu rebanho.

Decorrem daí os principais problemas do filme: não investiga o que tornou Francisco o homem progressista que ele é nem debate como é para a Igreja Católica, arraigadamente conservadora, tê-lo como seu líder máximo. "Pope Francis" foi uma encomenda feita pelo Vaticano ao diretor de "Asas do Desejo". Luterano praticante, Wenders afirmou que fez um filme não somente para católicos.

A noite terminou com a sessão, apenas para convidados, de "The House That Jack Built", que marca a volta de Lars von Trier ao evento;

Com os olhos vidrados e caminhar lento, o diretor dinamarquês cruzou o tapete vermelho e deu um rápido abraço em Thierry Frémaux, diretor artístico da mostra.

Von Trier ficou sete anos banido de Cannes após ter dito, na edição de 2011 do festival, que "compreendia" Hitler.

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