JOSY TEIXEIRA

Canções e citações de um rapaz latino-americano

21:50 · 02.05.2007
( TUNO VIEIRA )

Fazendo uma análise do discurso de 109 canções de Belchior, a professora e pesquisadora Josy Teixeira defendeu na semana passada a dissertação intitulada ´Muito além de apenas um rapaz latino-americano vindo do interior: investimentos interdiscursivos das canções de Belchior´. Com orientação do professor Nelson Barros da Costa, o trabalho inclui um apanhado das citações contidas em versos do compositor cearense a outras obras literárias, musicais e filosóficas. A seguir, a pesquisadora fala de suas investigações e conclusões a respeito da obra - essencialmente multirreferencial - do compositor cearense

Como surgiu a idéia de traçar uma análise de discurso das canções do Belchior?

Sempre gostei muito da música cearense, ouvindo a Rádio Universitária. Dos artistas cearenses, o que mais me chamou a atenção é o Belchior, desde muito cedo. O que me inquietava é que tinha muita coisa das músicas dele que eu não entendia. Percebi que pra entender precisava conhecer outros textos. Durante minha graduação em Letras, fiz sempre pesquisas sobre música, em semiótica. No mestrado, por coincidência, o Nelson (Barros da Costa, orientador da pesquisa) tava vindo do doutorado na França, com a proposta de montar um grupo de pesquisa. Como eu já conhecia a obra do Belchior, apresentei um projeto ao Nelson, e ele achou interessante. A opção por estudar a obra do Belchior surgiu dessa curiosidade pessoal pelas citações que ele faz nas músicas.

Que caminho você escolheu como metodologia?

As canções do Belchior trazem citações de textos da literatura, da música e da filosofia. Pesquisei as citações sobre literatura e música. Além dessa relação da música com os textos de outros autores, pesquisei a relação do Belchior com seus próprios textos. Existe uma crítica muito grande ao Belchior, de que ele canta sempre as mesmas músicas em shows, que sai muita coletânea... Então tem um capítulo de como o Belchior lida com essa sua própria produção. Usei matérias de jornal, não fiz eu mesma uma entrevista com o Belchior, porque pra nossa metodologia o que vale é o que os próprios textos mostram - no caso, as canções.

Sendo as músicas do Belchior repletas de citações, de músicos populares a autores mais herméticos, como explicar que suas canções clássicas – aquelas que ele canta nos shows – façam até hoje tanto sucesso, tenham suas letras tão longas cantadas do começo ao fim, sejam tão populares?

O próprio Belchior declara que esperava que a música dele fizesse sucesso apenas em nível mais acadêmico. Sinceramente, não sei bem como explicar. São dois autores que acho que têm uma obra mais profunda, ele e Zé Ramalho. Tem muita coisa do que eles dizem que não é entendida pelas pessoas, mas em qualquer churrascaria as pessoas cantam. Talvez porque, apesar das letras do Belchior terem esse conteúdo, as melodias e harmonias sejam simples. O que leva a essa popularização das canções do Belchior é essa musicalidade mais simples. Ele mesmo se declara um letrista, não tem pretensões de dizer que é um melodista, apesar de compor mais sozinho.

Não teria mais a ver com os temas? O amor, a juventude, o sonho, a estrada...?

De fato, os temas tratados nas canções falam muito às pessoas. O conflito de gerações, as relações de pais e filhos. As músicas surgiram na década de 70, retratavam muito aquilo que as pessoas queriam dizer. É como se ele vocalizasse os desejos das pessoas. Inclusive, sobre a crítica à repetição das mesmas canções, ele declarou em uma entrevista à (jornalista) Marta Aurélia que sempre canta as músicas de uma forma específica pra cada momento. Apesar das letras serem as mesmas, as pessoas são diferentes em cada show, o contexto é diferente. É como se ele tivesse uma consciência de que esses textos vão ter um significado diferente, dependendo da situação.

De que modo ele trabalha essas referências nas canções?

Uma é citar esses textos, com aspas, dizendo o autor. ´Um antigo compositor baiano me dizia: ´Tudo é divino, tudo é maravilhoso´´. Há várias outras formas de citação, de entrar no discurso alheio: a referência, a alusão, a paródia, o plágio – este entendido aqui, que fique bem claro, não como prática socialmente questionável, de apropriação, e sim pela conotação científica, de usar um discurso de outra pessoa, sem identificação. O que fiz foi identificar as formas pelas quais o Belchior se reporta aos discursos alheios.

Que exemplos podem ser citados, de cada caso?

As citações de literatura, por exemplo. Na canção ´Amor de perdição´ ele escreve “Ama e faz o que quiseres”, um trecho do Santo Agostinho. É uma citação, ele usou tal e qual. Em “Notícia de terra civilizada´, tem “Antes de tudo um forte”, citação aos “Sertões´, do Euclides da Cunha. As citações de outras músicas incluem casos como o de “Rock-romance de um robô golliardo, que traz ´Eu não sou cachorro não´.

Qual a diferença entre referência e alusão?

Na referência ele não utiliza outro texto de forma literal. Apenas remete a títulos de obras, personagens... Em “Clamor no deserto” ele canta “Mas só falta algum tempo para 1984”, se referindo ao livro do George Orwell. Em “Como nossos pais” canta que “Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não”, referência à canção “As aparências enganam”, de Tunay e Sérgio Natureza. A diferença entre referência e alusão é muito sutil. Alusão vem do verbo latino “ludere”, que é “jogar”. Como se fizesse um jogo de sugestão ao leitor. Em ´Como nossos pais´ ele diz: ´Na parede da memória esta lembrança é o quadro que dói mais´. Acredito que uma alusão ao trecho do poema do Drummond, ´Confidência de Itabirano´: ´Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói´. Em ´De primeira grandeza´, ele canta ´E a face oculta da lua, que é a minha, aparece iluminada´ - creio que uma alusão ao título do disco do Pink Floyd, ´The Dark side of the Moon´ (´O lado escuro da lua´). Claro que esses casos partem da minha análise. Pode haver análises diferentes.

Não há uma sensação de estranhamento muito forte em alguns casos, como na tradução literal de ´A felicidade é uma arma quente´ (na canção ´Comentário a respeito de John´, que cita a música ´Happiness is a warm gun´, de John Lennon)?

Ele cita a ´arma quente´ também na canção ´Como se fosse pecado´. Mas esse deslocamento é justamente uma característica da obra do Belchior. Ele pega os textos, tira do contexto original e insere na letra dele, como uma colagem. Por causa dessa descontextualização, o texto adquire novos sentidos, ressignificados.

E quanto aos casos de plágio, no conceito científico?

É bom lembrar sempre que é nesse sentido apenas, que o plágio aqui é linguagem, não entra nisso valor social, jurídico. Bem, em “Amor de perdição” ele diz: “Pois qualquer sofrimento passa, mas o ter sofrido não”. Existe um texto de um filósofo francês, Léon Bloy, que diz que “sofrer passa, o ter sofrido não passa nunca”. Cientificamente, chama-se plágio porque não se consegue identificar nenhuma marca na transcrição da letra da canção, ou na própria melodia da canção, para indicar a citação. Mas é um debate. Em ´Lira dos vinte anos´ ele diz: ´Sem sangue nas veias, com nervos de aço´. Lupicínio Rodrigues escreveu ´Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias´. Isso pode ser chamado de plágio, pelo fato de não ter aspas? É muito mais uma referência. São casos a ser discutidos, assim como a falta de uma padronização para a transcrição das letras de música.

E a paródia?

Tem um caso de citação e paródia ao mesmo tempo, na canção ´Divina comédia humana´, em que ele usa os versos do Bilac, ´Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso, e eu vos direi no entanto´. Até aí você sabe que é um poema do Olavo Bilac. Mas as intertextualidades se misturam. Os dois últimos versos dele, que são ´Que para ouvi-las, muita vez desperto e abro as janelas, pálido de espanto´, Belchior substitui por outros, dele mesmo, ´Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto´. Ele usa a mesma forma, mantém os versos, mas os parodia. Paródia é usar a mesma forma com outro conteúdo. Não tem valor negativo, e sim de homenagem ao autor.

DALWTON MOURA
Repórter

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