Festival Jazz & Blues

Cancioneiro afetivo

Ao conduzir temas tão populares e valiosos à memória do povo nordestino, apresentação conduzida por Waldonys soa irretocável ( Foto: JL Rosa )
00:00 · 14.02.2018

Com a entrada de Waldonys, surge um outro momento para a noite. Triunfal, o tema instrumental recortado pelos sete músicos aquece a apresentação. "Os primeiros shows que fiz tinham seis pessoas no máximo. Em um deles, comecei a tocar e o povo começou a sair. Ficou só um cara na mesa. Eu cheguei depois e disse, 'Obrigado você é minha inspiração, você ficou para minha apresentação. Prontamente o sujeito me respondeu, 'que nada, estou procurando minha muleta', divide no palco o espirituoso sanfoneiro.

A assinatura Chico Buarque é tecida com a elegante versão para "João e Maria". As sutilezas da composição são lembradas gradualmente e o público até consegue cantar baixinho. Nesse instante delicado e comovente, Waldonys aproveita para exaltar a figura do mítico Sivuca, mestre do instrumento que também assina esta canção, morto em 2006.

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"Agora vou pedir licença pra tocar uma música de meu padrinho, Luiz Gonzaga. Assim, 'Que Nem Jiló' é acompanhado pela sanfona de Waldonys. O sexteto conduz, com entrega, a pegada solar da canção. Nesse momento, o sanfoneiro pega os presentes pela mão e chama para a dança.

A canção é acompanhada de "Baião" e o clima de festa é mantido próximo às laterais do palco, onde inúmeros casais arriscam passos no forró.

Lembra de "Respeita Januário"? O tema retorna com propriedade e o Mestre Lua abraça o Jazz & Blues. Os versos "Luiz, respeita Januário" se encaixam na levada dos parceiros, com roupagem moderna. Waldonys aproveita o momento e relembra um curioso "causo" vivido com Gonzagão, lá pelos idos dos anos 1980. A mistura do lamento sertanejo e da estética do sexteto culmina em um dos pontos altos da primeira noite.

Solo

Após um rápido intervalo, os músicos do sexteto deixam Waldonys sozinho no palco - tomado, então, pelo virtuosismo suave do sanfoneiro. Com a releitura de "Carinhoso", ele transmite toda a beleza e melancolia do acordeom.

Na sequência, Eduardo Holanda e Cainã Cavalcante são chamados pelo homem da sanfona. "Guerreiro Menino", do cearense Fagner, é abraçada pela dupla de violonistas.

As surpresas são mantidas e conquistam ainda mais os presentes. Em total crescente, a faixa vai ganhando contornos extremamente rebuscados. Dor e alegria formam um mesmo lado. Ali, enquanto trio, extraem o máximo de seus instrumentos. "De Volta pro Meu Aconchego" é aplaudida e cantada a plenos pulmões. Uma demonstração do quanto a noite de abertura do Jazz & Blues foi especial.

Ao conduzir temas tão populares e valiosos à memória do povo nordestino, o número conduzido por Waldonys soa irretocável. O que poderia transparecer um jogo ganho, na verdade, demonstra o quão essas composições explicam a riqueza do cancioneiro popular deste pedaço do Brasil. O Jazz & Blues em Guaramiranga só começava. (AL)

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