ARTES PLÁSTICAS

Brincadeira de criar

02:05 · 21.06.2010
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O conjunto "Teimosia", que inclui seis esculturas do artista plástico Dim, estará em exposição permanente, a partir de sexta-feira, no Zoológico Sargento Prata

Está tudo pronto no sítio "Brinquedim" em Pindoretama, onde mora Antônio Jader Pereira dos Santos ou "Dim". O apelido vem da infância, quando o menino inventava de criar toda sorte de brinquedos, ainda em Camocim, onde nasceu. "Eu faço arte desde quando me entendo como gente. Na minha infância, eu era o menino mais danado do bairro, me chamavam até de Zé- faz-tudo". O "pronto" é só maneira de dizer, pois que o artista está sempre em processo de criação, separando materiais e objetos para, no momento certo, utilizar-se deles de algum jeito.

A partir de sexta, as seis esculturas vão enfeitar e participar da recreação das crianças que visitarem o Zoológico Sargento Prata. Juntas, as peças compõem o conjunto "Teimosia", encomendado pela Secultfor. João-Teimoso-escorregador, Maria-Teimosa-túnel, Maria-Teimosa-escalador, Cobra-túnel, Painel vazado para fotografar e Pássaros-gangorras, híbridos de bichos e brinquedos. Em fibra-de-vidro e pintadas com tinta automotiva, variam de 1,70m a 2,50m de altura.

A inspiração vem das primeiras lembranças de Dim, durante a feira de Camocim. O tradicional João-Teimoso chamou a atenção do garoto no meio de tantos outros brinquedos. "Tinha umas orelhinhas pra cima, que parecia um coelho, era todo enfeitado com papel de seda e pintadinho (...) e eu gostava demais (...) porque achava interessante ele ir e voltar, aí eu o desmontei e descobri que tinha um peso ali embaixo. Foi assim que descobri e até hoje ele está em tudo nos meus trabalhos".

Sem falar que o artista ainda identifica uma mensagem mais forte, que supera a das imagens da infância, como simples peça da qual gostava. A persistência. "Ele aparece assim com essa expressão de alegria, de felicidade (...) porque com esse mundo tão louco que está aí a gente tem que ser persistente na alegria, em tudo".

Em passeio pela embaixada do Japão em Brasília, Dim descobriu que a origem de seu querido brinquedo era mais antiga do que ele imaginava. Com 1500 anos de existência, ele é um talismã no Oriente, representando um sacerdote budista chamado Daruma, em posição de meditação. "Por isso, não aparecem as pernas, que era um questionamento que eu me fazia. Ele representa com esse movimento de cair e levantar a resistência, que é o que a minha intuição já me dizia: a gente tem de ser persistente, nunca desistir de nossos ideais".

Com formas plásticas inusitadas e cores alegres, as esculturas foram produzidas para serem manipuladas pelas crianças, que através do toque e do olhar descobrem a arte por meio da diversão.

A localização das peças, também em sintonia com a questão ambiental, é estratégica. Sob árvores, funcionam como "guardiãs" do verde e ainda favorecem a brincadeira, que somente pode acontecer debaixo das sombras. O diálogo entre natureza e arte, aliás, parte da experiência no sítio. Em meio ao verde, o colorido da minhoca gigante, os dragões-gangorra, o gato-túnel e mais uma infinidade de esculturas-brinquedo.

A ideia de sair dos museus e galerias e invadir praças e parques é uma das preocupações de Dim, que através da brincadeira socializa a arte. Desde a primeira exposição, há 22 anos, o artista já criou peças para lojas de Paris e a Praça de Paracambi, no Rio. Algumas de suas invenções estão no Dragão do Mar. Quem já foi, logo identifica pela marca tão pessoal de Dim.

FIQUE POR DENTRO
Trajetória de Dim

a história de Jader Pereira dos Santos está no documentário "Dim", do cineasta Nirton Venâncio; no livro "Dim - As Artes de um Brincante", da pesquisadora Beatriz Muniz Freire, (publicado pela Funart, Rio de janeiro, 1999); no livro "Eu era assim: Infância Cultura e Consumismo", do jornalista Flávio Paiva (publicado pela Cortez, São Paulo, 2009) e no livro "Em Nome do Autor", da jornalista Beth Lima (publicado pela Proposta Editorial, São Paulo, 2008).

MAIS INFORMAÇÕES
As peças de Dim podem ser conferidas sexta-feira no Zoológico Sargento Prata (Rua Prudente Brasil, 100. Passaré. Telefone: 85- 3295.1777)

SÍRIA MAPURUNGA
REPÓRTER

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