Coincidência

Brasil e Suíça em intercâmbio cultural

Programa promovido pela Pro Helvetia pretende ampliar trocas entre a cena artística suíça e brasileira

00:00 · 12.10.2017 por Roberta Souza - Repórter
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Jasper Walgrave (acima), coordenador geral do programa em Zurique, e Benjamim Soroussi (abaixo), coordenador regional, lançaram o "Coincidência" no último sábado (7), no Sesc Pompeia, em São Paulo ( Fotos: Denise Andrade/Divulgação )
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Os laços culturais entre o Brasil e a Suíça devem se estreitar a partir de agora. Isso porque o programa de intercâmbio "Coincidência" (2017-2020), recém-lançado em São Paulo, promete financiar algumas iniciativas daqui que dialoguem com os processos artísticos de lá. A iniciativa é da Pro Helvetia, Fundação Suíça para a cultura vinculada ao governo deste País, mas que realiza seu trabalho de forma autônoma, promovendo a arte e a cultura suíças não somente em seu lugar de origem, mas em diversas partes do mundo.

Criada em 1939, esta instituição possui hoje uma rede de escritórios de intercâmbio no Cairo, em Johannesburgo, Nova Déli, Xangai e em Moscou; e ainda um Centro Cultural em Paris e representantes em Nova York, Roma, Milão, Veneza e São Francisco. Com o novo programa, a fundação passa a operar em toda América do Sul, com representantes na Argentina, Brasil, Chile e Colômbia, além de estudar a instalação de um escritório permanente na região após 2020.

Na ocasião de lançamento, dentro da programação do 20º Festival Sesc_VideoBrasil, em São Paulo, estiveram reunidos os representantes André Regli, embaixador da Suíça no Brasil; Sabina Schwarzenbach e Jasper Walgrave, diretora da Pro Helvetia e coordenador geral do programa em Zurique; e ainda Benjamin Seroussi, a quem caberá o cargo de coordenador regional do programa.

Em seu discurso, Benjamim não fugiu de discussões importantes, como, por exemplo, a cautela com que a América Latina e seu passado colonial trabalha com essas referências europeias no âmbito artístico contemporâneo. O foco anunciado por ele, portanto, é de que maneira o programa pode ser útil à cena local, pergunta que eles tentam responder com os diferentes escritórios e sobretudo com um processo de diálogo.

Foram inclusive algumas reuniões com representantes daqui que levaram a Pro Helvetia a elencar suas prioridades. Neste primeiro momento, por exemplo, serão priorizados projetos e iniciativas com enfoques temáticos que abordem, de modo geral, conceitos de memória, construção do território, conflito e pós-conflito, contemporaneidade e narrativas não-modernas.

"Existem muitos interlocutores aqui, outros programas de intercâmbio, inclusive. E cada programa tem sua especificidade. Gostaríamos que o 'Coincidência' fosse mais silencioso, trabalhasse com uma escuta ativa. E para isso colocamos nossa rede internacional à disposição. São seus desejos que irão formar nosso trabalho", aponta Benjamim.

Ações

Projetos de artes cênicas, artes visuais, literatura e música, bem como multi e transdisciplinares, são algumas das possibilidades de parcerias que podem ser apoiadas pelo programa. Cada um desses campos abarca ainda um vasto escopo de formatos, entre exposições, residências, plataformas de pesquisa, turnês, coproduções, traduções e viagens de pesquisa. A linguagem audiovisual não é contemplada, já que o governo suíço tem outro órgão responsável por investir nela.

Em 2016, a Pro Helvetia contribuiu para a realização de quase 1.450 projetos culturais na Suíça e, suas ações de intercâmbio com o exterior apoiaram mais de 3.900 projetos culturais em todo o globo. Entre as atividades promovidas pela instituição se destaca o apoio à criação artística por meio de bolsas a compositores, escritores, artistas visuais, festivais, diretores e produtores de teatro, pesquisadores e produtores musicais e grupos de dança, bem como a artistas que fazem uso de novas mídias e tecnologias digitais em seus projetos.

Questionado sobre a aplicabilidade do Coincidência na região Nordeste e em Fortaleza, Benjamim Seroussi salienta que o programa possui uma limitação institucional de que os trabalhos dialoguem de alguma forma com a Suíça, mas que isso não significa um impedimento. "É uma limitação a partir da qual podemos ser criativos, imaginativos, para poder realmente entender quais as questões que se colocam em Fortaleza. Por que a capital do sertão vira a capital do sol? Como que isso implica em mudanças radicais no plano urbanístico? Tem pessoas da Suíça que podem dialogar numa crítica para essas questões? Cabe a nós juntos entender como instrumentalizamos o programa", propõe.

O coordenador regional do programa esclarece ainda que a parceria não fica restrita a artistas. "Podemos trabalhar com intelectuais, curadores, instituições que podem abraçar artistas, pensadores de outros lugares. Estamos tentando entender como podemos pensar triangulações. Temos um escritório no Cairo, e com certeza o Cairo dialoga mais com Fortaleza do que Genebra, tanto por razões geográficas como por razões políticas, geopolíticas. Será que podemos pensar uma coisa que seja Fortaleza-Cairo-Genebra? Isso vai nascer das demandas", acredita.

Processos

Dentro da perspectiva de trabalhar uma "escuta ativa", o programa Coincidência não funcionará, a princípio, com a ferramenta edital. Basicamente, os artistas interessados devem escrever e-mails para os representantes e, em diálogo, será analisada a viabilidade de cada proposta.

Benjamim analisa criticamente essa política cultural brasileira, apontando benefícios e malefícios. "Editais são importantes, porém não bastam porque propõem estruturas de criar, de pensar, de cima para baixo, que não necessariamente se aderem às necessidades dos artistas de pensamento contemporâneo. Essa ferramenta acaba trazendo formulário e planilha à frente do crescimento criativo e isso engessa o pensamento", acredita o coordenador.

Ao observar o desgaste anual dos artistas brasileiros com os editais públicos, especialmente, ele propõe nova estratégia com o Coincidências. "A gente quer promover mais o espaço de conversa. O que parece importante hoje? Uma exposição ou uma plataforma de pesquisa de três anos? O que queremos fazer? É essa escuta ativa que queremos promover mais do que formatos habituais, como as chamadas abertas de editais. Mas isso não quer dizer que não possamos lançar mão deles também. Porém, de fato, não seria nosso foco de jeito nenhum", pontua.

No último domingo, a Pro Helvetia entregou à La Decanatura, dupla formada pelos colombianos Diego Piñeros e Elkin Calderón, um prêmio de residência artística de três meses na Villa Ruffieux em Sierre. Os artistas estão entre os selecionados pelo 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, com a obra "Centro Espacial Satelital de Colombia". Ações como essa devem se intensificar nos próximos anos, em benefício às quatro cidades âncoras a partir das quais o programa vai funcionar na América Latina: Bogotá, Buenos Aires, Santiago de Chile e São Paulo - e às demais cidades abrigadas por seus países: Colômbia, Argentina, Chile e Brasil.

Mais informações:

Programa de intercâmbio cultural Coincidência, da Pro Helvetia (Suíça). Contatos: coincidencia@prohelvetia.ch.

Site: coincidencia.net

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