Exposição

Bordados para Rosa

02:05 · 25.08.2006
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Logo na entrada, escondida discretamente no lado direito do acesso principal ao Centro de Convenções, uma exposição. Ou melhor, um presente para o público. São bordados feitos à mão e linha, formando imagens de uma só obra: uma homenagem ao escritor mineiro Guimarães Rosa. Na mostra “Tecendo Rosa”, o visitante da 7ª Bienal Internacional do Livro do Ceará encontra trabalhos em bordados de três grupos paulistas difusores da obra do autor de “Grande Sertões: veredas”, que, em 2006, comemora 50 anos de sua primeira publicação

Sob a responsabilidade de Beth Ziani, doutoranda da USP e pesquisadora da obra de Guimarães Rosa, a exposição “Tecendo Rosa” reúne bordados dos grupos “Teia de Aranha”, “Mãos de Ariadne” e “Laços e Traços”. Cada um carrega consigo um significado diferente, mas acaba por cumprir o mesmo fim: difundir e refletir a obra de Rosa. Entre os três, o mais antigo é “Teia de Aranha”, existente desde 1995. Os demais surgiram a partir da experiência da teia. “Mão de Ariadne” é composto por educadores, que utilizam o bordado como elemento pedagógico. “Laços e Traços” se constitui por laços familiares: irmãs, tias, primas. Todas leitoras de Guimarães Rosa.

Beth Ziani participa do “Teia de Aranha”. Dele, ela pode falar com mais propriedade. Com reuniões semanais, o grupo, além de desenvolver os bordados, trabalha com a idéia de memória dos moradores das cidades de Corpisburgo - onde Guimarães Rosa nasceu - e Morro do Garça - retratada na obra do escritor. As componentes do “Teia”, todas paulistas, viajam para a região mineira para oferecem capacitações de bordados. Mas, por meio dessas experiências, os encontros promovem reflexões entre os moradores sobre a memória da região, sempre relacionadas com a obra literária.

“Interessante é que mesmo nesses lugares, descritos no texto de Rosa, os moradores de lá conheciam muito pouco o escritor. Com a efeméride de 50 anos de publicação do Grande Sertão, a obra dele ficou mais conhecida na região”, comenta Ziani. Ao oferecer oficinas de bordados tendo como mote os livros do escritor, ela acredita conseguir estabelecer redes coletivas, que possam, através das peças produzidas, registrar a memória coletiva e formar um vínculo com o sertão. “O sertão que Rosa narrou nem existe mais, mas existem pessoas que vivenciariam aquele sertão. Isso é legal, porque podemos trabalhar com o público específico da terceira idade e fortalecer ainda mais o registro da memória local. Esse contato com a obra fortalece as relações comunitárias e contribuem desde a divulgação da obra de Rosa, até discussões sobre questões ambientais”, complementa.

Em “Tecendo Rosa”, o público encontra as peças feitas especialmente para uma exposição que houve na USP, em maio deste ano em comemoração à efeméride de “Grande Sertão: veredas”, sua obra-prima. No entanto, os bordados representam trechos de “Corpo de Baile”, outro livro que, em 2006, também comemora 50 anos de publicação, porém menos badalado. “Buriti”, “Campo Geral” e “Lélio e Lina” - novelas do livro - ganham forma de linha e pano. Além das três peças, a exposição conta com o bordado de coração que reproduz o desenho feito por Rosa para a sua ex-esposa Araci. Há também uma colcha de retalho, com trechos e imagens da obra do mestre. (TC)

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