Cinema

Bergman: a parte que revela o todo

Em documentário, Jane Magnusson retrata a genialidade do sueco a partir de seu auge, o ano de 1957

00:00 · 14.07.2018 por Dellano Rios - Editor de Área
O cineasta sueco Ingmar Bergman e, abaixo, um se seus filmes mais importantes: em "O sétimo selo", diretor suscita reflexões sobre a morte e a finitude. Obra é analisada em documentário que celebra os 100 anos de nascimento do diretor

Se não existe receita para um documentário de sucesso, há um caminho certeiro para fracassar quando o assunto é Bergman: tentar abarcar toda a sua trajetória.

Até mesmo "A Ilha de Bergman" (2004), tido como o "uberdocumentário" sobre o cineasta sueco - por contar com sua aquiescência e participação direta-, restringiu-se a três temas principais: a ilha de Faro, o trabalho em cinema e a atuação no teatro.

A diretora Jane Magnusson já havia mostrado conhecimento dessa máxima com a minissérie "Bergmans Video" (2012), que se centra na variada coleção de fitas VHS do cineasta, e o longa "Trespassing Bergman" (invadindo Bergman, 2013), no qual admiradores célebres falam do sueco, alguns deles de dentro de sua casa na ilha.

Com o centenário do nascimento do diretor, veio a tentação traiçoeira de fazer um retrato que desse conta de sua vida e obra - e Magnusson se lançou ao desafio.

O título insosso do filme no Brasil - "Bergman - 100 anos" - poderia sugerir mais um fiasco documental comemorativo. Mas com "Bergman - Ett år, Ett Liv" (Bergman - um ano, uma vida), a diretora escapou à armadilha ao pôr em foco somente o ano de 1957, a parte que revela o todo.

Clássicos

Na primeira exibição no Festival de Cannes deste ano, Magnusson declarou: "Eu queria fazer um filme comemorativo de Bergman pelo ano de 1957, pois é impressionante o que ele faz naquele ano, mas também mostra o custo de trabalhar tão intensamente".

Estamos no ano de lançamento de duas de suas obras mais conhecidas, "O Sétimo Selo" e "Morangos Silvestres", além da produção de seu primeiro filme para TV, "Herr Sleeman Kommer" (o sr. Sleeman vem) e da encenação de quatro montagens teatrais -incluindo "Peer Gynt", de Ibsen, tido como inadaptável aos palcos até então.

Vida

Na vida pessoal, é naquele ano que conhece Käbi Laretei (que se tornaria sua quarta mulher em 1959) e Ingrid von Rosen (sua quinta e última esposa), enquanto mantém um relacionamento com a atriz Bibi Andersson paralelamente ao casamento com a jornalista Gun Grut, que, por razões óbvias, desmoronava.

Ele mal vê os seis filhos que já tem à época, com três mulheres diferentes.

Com depoimentos e imagens de arquivo, o filme passa por temas espinhosos, incluindo o alegado flerte de Bergman com o nazismo e um testemunho tão antigo quanto controverso do seu irmão mais velho.

Há também uma tentativa de acerto de contas com o diretor sob efeito do movimento #MeToo. O documentário estava em produção no auge dos escândalos, e Bergman, afinal, ficou conhecido pelo envolvimento amoroso com atrizes com quem trabalhou.

Diante, porém, da negação generalizada de assédio pelas colaboradoras, sobressai o discurso uníssono sobre a profundidade das personagens que interpretaram na obra de Bergman, algo em que o diretor foi pioneiro.

Com a coragem para passar pelos terrenos pantanosos da biografia do cineasta -e o talento para não se afundar neles-, Magnusson entrega um retrato fresco e criativo de uma figura já tão analisada, inclusive por ela mesma.

Mais informações: 
Bergman - 100 anos (Bergman - Ett år, Ett Liv, Suécia, 2018), de Jane Magnusson. 
Sábado, 14, às 20h10, no Cinema do Dragão

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