Ensaio

Barbosa de Freitas: relido e recitado

O pesquisador Sânzio de Azevedo discorre sobre o poeta romântico cearense, um seguidor de Castro Alves

00:00 · 01.09.2018

Dimas Macedo, conhecido como poeta, crítico, historiador e jurista, é também editor, e foi assim que ele publicou a segunda edição de "Poesias", de Barbosa de Freitas (1860-1883), em 2004, e pediu-me para fazer a introdução.

Quando da primeira edição do livro, póstuma, em 1892, Adolfo Caminha, que poria no seu romance "A Normalista" (1893) um bêbado a dizer que Freitas tinha "versos magistrais, dignos de V. Hugo", no jornal O Diário de 15 de junho daquele ano escreveu uma nota na qual elogiava a homenagem ao poeta, mas salientava que ele "não era um poeta de fina têmpera, isento de defeitos e conhecedor de todos os segredos da moderna poesia", lembrando a sua pouca idade. Barbosa de Freitas morrera com 23 anos, vítima de tuberculose.

Os próprios organizadores do livro, seus amigos, dizem: "Suas produções, a maior parte inspiração de momento, confessamos, são incorretas". E J. W. Ribeiro Ramos, em conferência de 1944 ("Ignorante sublime"), informa que não poucas composições, "recitadas entre vapores alcoólicos, salvaram-se do esquecimento porque eram gravadas pelos seus admiradores no próprio mármore das mesas em que bebiam ou no punho das camisas, de onde depois trasladavam para o papel".

Ainda bem que, no romance de Caminha, o personagem admirador do poeta diz dele a primeira estrofe de "Êxtase", poema escrito em 1876, quando Freitas contava apenas 16 anos de idade: "Quando às horas silentes da noite,/ Doce flauta descanta no ar,/ Quando as vagas soluçam baixinho/ Sobre a praia que alveja ao luar!...".

Há no livro oito sonetos, o que é muito para um romântico (Casimiro de Abreu não pôs um só nas suas "Primaveras"), mas estranhamente os quartetos não rimam entre si, o que seria um procedimento mais comum entre os poetas realistas, como Lúcio de Mendonça, parnasianos, como Raimundo Correia, e simbolistas, como Dario Veloso, Emiliano Perneta e outros. Os românticos, como Gonçalves Dias, Fagundes Varela e Castro Alves, os fizeram com as mesmas rimas nos quartetos.

Um dos sonetos de Freitas é "Eles!...", de cunho algo social: "Passai, passai, ó tigres disfarçados!/ Não perturbeis-me o plácido sossego!/ Causa-me horror o vosso orgulho cego,/ Não me fiteis os olhos injetados!...// Tendes na fronte o torvo crime escrito.../ Cingis à cinta o túrbido punhal./ Andais cantando - um canto sepulcral,/ Terrível, frio, estúpido, maldito!.../ Tenho medo de vós... Vossas risadas.../ Selváticas, bestiais, aguardentadas,/ Parecem-me o ladrar de cães doentes.// Sois para mim abutres carniceiros.../ Da humanidade os lúgubres coveiros,/ Os convivas da infâmia, intransigentes".

Há poemas que são improvisos e que creio o poeta iria refugá-los ou corrigi-los. É o caso de "Colônia Cristina", em que se pode detectar um erro de gramática: "As águias nascem pequenas, Mas, quando crescem-lhe as penas,/ Sabem bem alto subir". É evidente que deveria estar lhes, em vez de lhe.

Seguidor de Castro Alves, teve, como o poeta baiano, vários de seus poemas musicados e cantados nas serenatas. Como o citado "Êxtase" e "Amanhecer" (que muitas vezes ouvi minha Mãe cantar).

Quero encerrar este texto sobre o poeta transcrevendo-lhe uma estrofe do poema "Aos Meus 22 Anos", composição irregular, com bons e maus momentos. Mas reproduzirei aquela em que, a meu ver, Barbosa de Freitas atingiu o ápice de sua arte.

"Tenho nojo do esquife, odeio as nênias;/ Causa-me tédio o sino que retumba,/ Maldigo o seco crepitar dos círios,/ Prostra-me a ideia da sombria tumba. / Tenho nojo do esquife, odeio as nênias"!

Esse o poeta que dá nome a uma das ruas da Aldeota, em Fortaleza, e do qual o único retrato que conheço é um desenho de Rubens Diniz, que ilustra a citada conferência de J. W. Ribeiro Ramos.

Doutor em Letras, da Academia Cearense de Letras e da Academia de Letras do Brasil (DF)

Sânzio de Azevedo

Especial para o caderno 3

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