Ensaio

Autran Dourado: artesão da palavra

02:06 · 11.05.2013
O escritor mineiro Autran Dourado é autor de uma vasta obra. Além de romances, escreveu contos, novelas, infanto-juvenil, ensaios e memória

Em todos esses gêneros o autor teve uma incansável preocupação com a linguagem e uma incessante dedicação e atenção aos processos de narrar. Sua literatura é resultado de uma construção consciente, bem elaborada, de estrutura labiríntica. Seus romances são desmontáveis, feitos em blocos, permitindo múltiplas leituras. No processo de construção, o artesão trabalha com a técnica que vem sendo elaborada ao longo dos anos de aprendizagem existencial, literária e filosófica para aprimorar a obra de arte literária.

A literariedade

Na leitura de sua obra, verifica-se que, a partir de Tempo de amar (primeiro romance, publicado em 1952), passa a existir uma preocupação maior com o fazer literário. A feitura do texto recebe o que se pode chamar de tratamento artesanal. Após a sua conclusão, o autor o retoma e procede a inúmeras modificações, visando à ruptura com a estrutura tradicional desde, pois, trabalhar a narrativa em bloco, mudando a ordem dos capítulos, alterando a pessoa e o tempo dos verbos, alterando o emprego dos substantivos e adjetivos, criando o "flash-back", fazendo com que o romance ganhe, segundo Autran, em movimento e plasticidade.

O próprio Autran Dourado afirma, em Uma poética de romance: matéria de carpintaria (2000), ter sido, através de Tempo de amar - livro de transição, devido às suas mudanças qualitativas -, que começou a tomar conhecimento de que o importante na feitura de uma obra literária é o movimento e a linguagem. Com a experiência obtida nesse romance, passa a se exigir mais em relação às técnicas da narrativa e obtém um crescimento gradativo nas obras que se seguem.

Há, na ficção de Autran Dourado, uma preocupação primordial com a linguagem. Mudanças são feitas incansavelmente até chegar ao ponto desejado de esgotamento criativo, para que surja nova ideia e novo romance. Uma vez que Autran Dourado não acredita em inspiração, o ato de escrever torna-se um escavar sem fim, sofrimento e dor que só cessam com a conclusão do texto.

O aprimoramento artesanal da linguagem tem alterado substancialmente a qualidade do romance moderno, o que, por sua vez, tem adquirido forma tão surpreendente como, por exemplo, O risco do bordado, de Autran Dourado, obra que a crítica não o filiaria a nenhum dos três gêneros (romance, conto ou livro de memória), porque entendo que ele pode representar os três ao mesmo tempo. (LINHARES, 1973, p. 126). A artesania textual é característica comum ao texto autraniano. Ele os exercita ao ponto máximo em suas narrativas e de forma muito singular que se tornam rapidamente visíveis ao leitor que tem o hábito da leitura de ficção moderna.

O narrador

A figura do narrador tem lugar reservado no texto autraniano. Na verdade, há, em seus textos, uma multiplicidade de narradores, como também de narrativas. As histórias são contadas, geralmente, por um narrador individual, outro coletivo (a ´gente´ - São personagens que acompanham da rua as mudanças que ocorrem no casarão da família Honório Cota) e por algumas personagens que compõem os vários discursos dos textos. Observa-se, em suas narrativas, dentro do mesmo parágrafo, uma permutação de tempo verbal. O narrador conta em terceira pessoa acontecimentos da vida da personagem João da Fonseca Nogueira, enquanto, no mesmo parágrafo, o próprio João da Fonseca Nogueira, em primeira pessoa, vai relembrando seu passado, sua infância no Colégio interno São Mateus (Um artista aprendiz/1989), ou quando João da Fonseca Nogueira dialoga com Ismael Silveira Frade (Ópera dos fantoches/1994) ou na conversa de João da Fonseca Nogueira com Dona Sofia (Confissões de Narciso/1997). São todos diálogos embutidos na narração, que formalizam a construção de uma narrativa dentro da outra. Mikhail Bakhtin afirma que: (Texto I)

A estrutura de composição dos textos de Autran - vazada por frequentes fluxos narrativos, interrupções na ordem cronológica, narrativas em blocos ou painéis onde as partes distintas e autônomas formam uma unidade vertical - denuncia um trabalho consciente e meticuloso. O texto não chega ao leitor sem essa operação. (Texto II)

Desse exercício do fazer/criar resulta uma técnica similar a uma ciranda, que se vai estruturando pelo desdobramento circular e construindo metáforas-símbolo em linhas bem definidas de sua estrutura e composição. Autran Dourado se impõe no cenário da ficção brasileira contemporânea, tanto pela sua obstinação pelo apuro narrativo, como também pelo seu perfeccionismo na utilização da língua portuguesa falada no Brasil.

FIQUE POR DENTRO

Breves notas acerca do autor e de sua obra

Waldomiro Autran Dourado nasceu no dia 18 de janeiro de 1926 em Patos, Minas Gerais, e morreu no dia 30 de setembro de 2012 no Rio de Janeiro. A história da literatura brasileira registra a estréia de Autran em 1947 com a publicação de Teia, obra à qual se seguem, pouco tempo depois, Sombra e exílio (1950) e Tempo de amar (1952), essa última considerada como marco das mudanças que se processarão em toda a sua produção seguinte, dando-lhe uma apurada concepção de linguagem. Em seus textos, o autor aborda as temáticas, dentre muitas outras, da solidão, da loucura, da morte e do tempo, de forma constante e muito particular em cada narrativa e, de modo menos constante, trabalha em alguns romances, como em Os sinos da agonia (1974) e A Serviço del-Rei (1984), temas vinculados à história e à política, numa perspectiva mítica, paródica e simbólica.

Trechos

TEXTO I

A multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoiévski. Não é a multiplicidade de caracteres e destinos que, em um mundo objetivo uno, à luz da consciência una do autor, se desenvolve nos seus romances; é precisamente a multiplicidade de consciências equipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de conhecimento, mantendo a sua imiscibilidade. (BAKHTIN, 1981, p. 2).

TEXTO II

Durante esse período de gestação, tomo notas e mais notas, leio as coisas mais extravagantes, às vezes livros que nada têm a ver com a literatura. Vou de filosofia aos estudos e documentos históricos, como aconteceu com Os sinos da agonia. E enquanto não tenho bem visualizada dentro de mim toda a composição, enquanto não consigo ver nitidamente a unidade interior da obra, a sua estrutura, a sua forma, não me disponho a escrever. Faço gráficos e esquemas, sinopses, monto desenho, armo quadrados, retângulos e círculos, como se fosse um arquiteto, a régua, compasso e transferidor. (DOURADO, 2000, p.166).

LIDUÍNA FERNANDES
COLABORADORA

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