Entrevista com Ney Matogrosso

Atento ao futuro

Na reta final de sua turnê mais longa, a politizada "Atento aos Sinais", o cantor Ney Matogrosso fala do show que fará no festival I'Music, dos métodos de criação e dos preparativos para um novo álbum de estúdio

00:00 · 02.01.2018 por Dellano Rios - Editor de Área

Há duas décadas, Ney Matogrosso iniciou uma dinâmica fonográfica que pouco saiu do roteiro: uma ora, discos dançantes, apontando para interpretações ao vivo performáticas; noutra, trabalhos delicados e introspectivos, incursões por repertórios fortes como os de Heitor Villa-Lobos e Cartola (os shows derivados, neste caso, mais contidos e minimalistas). Só que, no meio do caminho, apareceu "Atento aos Sinais" (2013). O disco, do ramo performático, deu origem a uma turnê homônima que, desde então, está na estrada. É este o show que o artista apresenta em Fortaleza no próximo domingo, 7, no Festival I'Music, do Shopping Iguatemi. Dividindo o dia com Jorge Ben Jor e Monobloco, Ney Matogrosso apresentará um de seus repertórios mais roqueiros e de alta voltagem política, com composições de nomes como Arnaldo Antunes, Lenine, Criolo e Paulinho da Viola. O disco rendeu um CD/ DVD ao vivo, em 2014, e uma passagem por Fortaleza no mesmo ano.

O show de domingo, em Fortaleza, será um dos últimos da turnê "Atento aos Sinais". Como está sendo a despedida de uma excursão tão longa?

A turnê está começando a entrar na reta final. Eu pretendia ir com ela até o começo de fevereiro, mas teve um show adiado. Então vamos encerrá-la em março deste ano.

Esta foi sua turnê mais longa, certo?

Nunca fiquei tanto tempo apresentando um mesmo show. E já são cinco anos com esse.

O que fez você passar tanto tempo com "Atento aos Sinais" em turnê?

Ué? Porque a turnê teve procura. Quando chegou em dois anos e meio (de excursão), eu pensei: "bom, tá na hora de parar". Mas aí começou tudo de novo. Por onde eu passava, tudo lotado. Cada vez que ia fazer show em um lugar, aparecia dois, três outros para fazer. E eu não podia cortar isso. Agora, depois de cinco anos apresentando o show, acho que tá de bom tamanho.

Em 2008/ 2009, você fez outra turnê também nessa linha bem performática, mas "Inclassificáveis" passou bem menos tempo na estrada. A que você credita essa procura pelo show de "Atento aos Sinais"?

Essa foi a primeira vez que fiz um trabalho intencionalmente conectado com o que está acontecendo no mundo, com o presente. Claro, eu sempre colocava minha crítica, mas não fazia nada preocupado em falar do presente, como fiz nesse disco. Eu queria que ele estivesse conectado com o momento em que estamos vivendo.

Com os movimentos nas ruas de 2013, ele soou bem atual; e o que aconteceu depois faz soar ainda mais verdadeiro hoje.

Pois é.

Você mexeu no show de lá para cá?

Mexi no final dele. Antes, ainda tinha uma troca de roupa, que eu achava excessiva. Pra mim, ficava um buraco. Por isso, tirei essa troca e ficou melhor. Enxuguei o final, mas coloquei mais três músicas.

Você é um artista veterano quefaz turnês com repertórios sempre renovados. Há quase 20 anos você não trabalha um show com um repertório do tipo "maiores sucessos". Não o interessa algo assim?

O que me interessa mesmo é estar lançando coisas novas. Não faço um show de sucessos, mas sempre tem uma ou outra coisa antiga que boto nele. Esse tem o "Amor" (do primeiro álbum dos Secos & Molhados, de 1973), o "Poema" (do disco "Olhos de Farol", de 1999) e tem "Ex-amor", que gravei num songbook do Martinho da Vila. Achei tão boa, que botei a canção no show.

Os fãs não cobram uma turnê de maiores sucessos?

As pessoas cobram sim. Mas não tenho vontade de fazer isso. Não significa, claro, que eu não possa fazer. E até faço (alguma coisa), não com a ideia de mostrar os antigos sucessos. Quando pego uma música antiga, prefiro até que tenha sido uma que fez menos sucesso.

Em cinco anos de turnê, imagino que você tenha tido uma ideia para um próximo disco de estúdio.

Uma não, várias, né? Porque ele não acontecia e as ideias não foram concretizadas. A ideia vinha e não ficava.

Mas, agora, com o fim da turnê, você tenha alguma mais precisa?

Olha, eu tenho um esboço de repertório. Mas não está fechado. Posso mexer ainda... Na verdade, não estou preocupado em lançar (um novo disco). Quero cantar tudo o que eu gostar, sem pressa.

Você testa o repertório antes de entrar no estúdio?

Testo. Sempre começo em Juiz de Fora, porque ali tem um teatro que deixa eu ficar uma semana lá dentro, ensaiando, fazendo luz... Imagina: quando eu ia estrear no Canecão (RJ), tinha uma noite - e pronto. Em Minas, fico uma semana, monto, faço luz, palco, trocas de roupa... E testo o show. Dependendo do que observo - das reações do público, inclusive -, deixo no show.

Entre esse teste em Juiz de Fora e o começo da turnê, leva quanto tempo?

Não, você não entendeu direito: a turnê já começa em Juiz de Fora. Dali, vou pra São Paulo, pro Rio de Janeiro,...

Isso acontece antes ou depois de passar pelo estúdio?

Antes. Eu gravo o disco alguns meses depois. Cinco ou seis meses depois. As coisas mudaram. A questão do disco não é mais a meta. Não vende mais como antes. Faço como um registro, penso uma capa bonita e lanço. Gravo um DVD um ano, um ano e meio depois (da turnê começar), quando o show está bem madurinho. Antigamente, tudo era feito ao contrário. Você fazia um disco verde e ia pra estrada verde.

Essa dinâmica tem a ver com o estado atual das coisas no ramo fonográfico. Mas, falando assim, parece que funciona melhor hoje para você.

Pra mim, é melhor sim. Chego mais tranquilo no estúdio, com tudo pronto, já pra gravar o disco. Já chego no estúdio tendo cantado, experimentado o repertório; e visto a reação das pessoas.

Seus últimos discos, "Inclassificáveis" (2008), "Beijo Bandido" (2009) e "Atento aos Sinais" (2013), todos têm essa energia de palco.

Embora não sejam gravados ao vivo. Soam assim, porque, na hora que fiz o registro, eu já cantei muito aquelas canções.

Quem acompanha a sua carreira sabe que, de 2013 para cá, você costuma gravar bastante. Canções para trilhas sonoras, participações no trabalhos de outros artistas, singles... Estar no estúdio é uma necessidade artística como estar em cima do palco?

Faço muito coisa mesmo. Tem hora que me dá cansaço. Participo de filmes, faço trilhas, gravo em disco de muita gente. Faço muita coisa, não fico só fazendo show.

Só fazendo shows?

(Risos) Verdade, fazer shows não é pouca coisa. Mas eu gosto de participar de trabalhos, quando curto o projeto, claro. Mas é outra coisa. Eu chego no estúdio, já tem um arranjo. Vou lá e ponho a minha voz. Peço sempre que coloquem uma voz guia. Não tenho tempo de aprender as melodias, em geral. Uma voz guia me dá referência da melodia, aí eu canto em cima. Depois, tiro a voz e começo a cantar de novo, em cima da minha. E com isso tenho liberdade de expandir.

O encontro com a Nação Zumbi, no Rock In Rio, foi registrado para lançamento, em CD, DVD?

Aquilo era apenas para o Rock In Rio. Já estava com meu trabalho de lado há muito tempo e já muito adiantado (em pensar o próximo disco solo). Não achei que devesse abrir mão do que já estava formulando pra fazer uma coisa que sei que faria sucesso. Não era o que pretendia no momento.

Nos últimos anos, você alternou discos mais rock'n'roll com outros mais.

Isso foi proposital.

Agora, pela ordem, deveria vir um mais tranquilo. Como ele será?

Esse eu pretendo que seja um trabalho pop, mas não necessariamente de rock. Mesmo que não faça rock, gosto muito de trabalhar com guitarras, baixo, bateria. Mas não tem nada premeditado. Quero encerrar "Atento aos Sinais" primeiro. Claro, já conversei com meu diretor artístico, o Sacha Amback (o mesmo da atual turnê). "Vamos olhar o repertório, tirar um som". Mas é tudo com calma, sem correria. Tenho que montar outra banda. Não sei se essa é a que deverá fazer (o novo disco e a turnê futura). Pode até ser. Mas posso querer mudar alguma coisa. Eu funciono assim, com muita liberdade mesmo. Não tenho compromisso com nada. É importante que, primeiramente, o trabalho me satisfaça. E se me satisfizer, eu corro o risco de agradar o público.

Você tem uma relação permanente com a música, e - com frequência - também faz cinema. Você também atua em outras artes?

Olha, eu não escrevo. Mas eu pintava e desenhava. Ainda faço isso, mas não com a frequência de antes. Teve um tempo que, se eu olhasse para você, poderia fazer o seu retrato, de tanto treino que eu tinha. Engraçado, quando comecei a cantar, é como se tivesse direcionado tudo pra música. Mesmo a parte da atuação, porque eu era ator antes dos Secos & Molhados. Acho que o cinema entra aí, porque não tenho coragem de me afastar da música por um ano, pra fazer uma peça, por exemplo. O cinema é mais rápido: um mês, um mês e meio. Uma semana. Você vai lá e faz e está liberado e toca a sua vida. E é um exercício de contenção, de que gosto bastante. Na música, sou todo extrovertido. Já o cinema exige uma contenção que, para mim, é muito interessante.

Você que dirige tudo na música, passa a ser dirigido.

Quando faço cinema, estou na mão do diretor. Quero que ele diga tudo, peça tudo o que pretende. E faço tudo o que ele quer, mas da minha maneira.

Programação

Festival i'Music

Sexta, dia 5

AnaVitória
Projota
Selvagens à Procura de Lei

Sábado, dia 6

Frejat
Paralamas do Sucesso
Jota Quest

Domingo, dia 7

Ney Matogrosso
Jorge Ben Jor
Monobloco

Mais informações:

Festival I'Music - De 5 a 7 de janeiro, no Shopping Iguatemi (Av. Washington Soares, 85, Edson Queiroz). A partir das 17h. A cada R$ 200 em compras, o cliente pode adquirir até quatro ingressos (R$ 40 cada) ou comprar avulso por R$ 80 (meia) - válidos para um dia de show. Contato: (85) 3477.3560

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