Ensaio

Aspectos gerais da poética parnasiana

00:54 · 24.08.2013
A Era Realista compreende as expressões, em prosa, do Realismo, do Naturalismo e do Parnasianismo, - este, especificamente em poesia. Ideologicamente, o Parnasianismo identifica-se com os valores burgueses, em especial com a ilusão de que o progresso e a tecnologia levariam o homem a uma vida de conforto e de prazeres. Embora sejam estilos coetâneos, o Parnasianismo distancia-se das manifestações artísticas em prosa, por entender que a arte comporta apenas um fim em si mesmo, colocando-se, dessa maneira, acima das questões sociais, políticas e econômicas... A identificação com sua contemporaneidade dá-se através da atitude antirromântica, bem como a partir de uma postura racional e objetiva diante da realidade.

Ao contrário de Portugal, onde predominou a poesia realista (nesta, os poetas desenvolvem, em seus respectivos versos, as mesmas temáticas e discussões dos prosadores em seus contos, romances e novelas: a crítica social, a investigação psicológica, e, utilizando-se de ironia, de humor e de sarcasmo, os autores apontam a decomposição dos valores burgueses, vendo, com extremo pessimismo, os caminhos traçados pela socieade a eles contemporâneas.

Desse modo, ao lon go de seu percurso, a poesia parnasiana voltou-se para as concepções estéticas do mundo clássico, pregando, de modo incisivo, a impassbilidade, a racionalidade, o culto à forma e, sobretudo, a concepção de arte pela arte, isto é, o esteticismo, uma vez que pregava ser o compromisso com o belo o único caminho por que se deveria guiar o artista.Porém, a poesia de Olavo Bilac transcende as limitações formais e o frio objetivismo do Parnasianismo, conforme flerta com a estética romântica e sua sensualidade, brinca com a sonoridade das palavras e dialoga com o passado histórico do Brasil.

À deriva

O poema "Nel mezzo del camin..." integra a obra "Sarças de Fogo". O título significa "No meio do caminho"; sedimenta-se esta composição em inversões e repetições, temática centrada nos encontros e desencontros da vida. Famoso poema de Olavo Bilac que retoma o verso de abertura do livro Inferno, que é a primeira parte d´A Divina Comédia, obra-prima do poeta italiano Dante Alighieri. No poema de Dante, esse trecho corresponde a uma metáfora do caminho que o protagonista do poema está para enfrentar e vencer, em busca de sua amada e de uma revelação divina. É, em Olavo Bilac, um poema parnasiano na forma e romântico no conteúdo: (Texto IV) No poema de Olavo Bilac, percebe-se, de maneira nítida, que o sujeito do discurso incorpora um eu masculino que lamenta a dor de separar-se de sua amada após um considerável tempo em que passaram inebriados pela paixão. Do ponto de vista formal, ressalta-se, ao longo do corpo do poema, uma recorrência de recursos expressivos que giram em torno de paralelismos e quiasmos (figura de linguagem que repete os termos em versos diferentes, mas em ordem invertida).

Além disso, há a presença do enjambement ou cavalgamento, que é a construção sintática especial que liga um verso ao seguinte, o que gera um alongamento do metro e aproxima o ritmo do verso ao ritmo da prosa. Desdobra-se em três segmentos muito bem caracterizados: o encontro amoroso; a intensidade da vivência amorosa e a separação sugerida pela recordação das mãos unidas em tempo passado e agora afastadas. Dessa forma, o tema se desenvolve entre amor e dor, entrega e separação. O texto segue a forma fixa do soneto, com rimas externas (cruzadas e alternadas) e versos decassílabos.

Tercetos

Em seu livro "Alma Inquieta", destaco os seguintes poemas: "Tercetos" e "Inania Verba". "Tercetos" é um poema longo escrito em estrofes de três versos, centrado no amor sensual, na negação do eu lírico em se afastar da figura amada. (Texto V)

Inania Verba

O título deste poema, "Inania Verba", apresentado em latim, significa "palavras inúteis", explica a dificuldade encontrada pelo eu lírico em traduzir os sentimentos através de palavras. Constitui, assim, um metapoema, pois, o discurso recai sobre si mesmo. Nesse sentido, o intento da composição reside no próprio desafio que as palavras impõem ao realizador do discurso. Desse modo, as palavras não conseguem alcançar a atmosfera das emoções, pois são "vazias", "frívolas", "pesadas". A função metalinguística constitui um dos temas mais desenvolvidos por grande número de poetas, uma vez que, independentemente da época, é comum a peleja entre o sujeito da escrita e o sua própria composição: (Texto VI)

Nos versos iniciais, o eu lírico resume a angústia de conter em uma forma perfeita e fria as ideias arrebatadoras. Assim, o poeta dirige-se à sua própria alma como uma entidade impotente e escrava das formas que não conseguem traduzir os seus sentimentos. Isso gera para ele uma sensação de dor que é equiparada à mesma que Cristo sofreu quando foi pregado na cruz (vide o verso 3 do primeiro quarteto). O último verso da primeira quadra complementa o pensamento de impotência, visto que o ideal do sujeito-lírico transforma-se em lodo, isto é, as ideias do movimento parnasiano que tanto o deslumbravam, agora, estão degradados.

O primeiro terceto abre-se com uma indagação: "Quem o molde achará para a expressão de tudo?" E no seguinte, há um lamento, dado que é achar uma expressão para tudo é impossível. Esse aspecto ganha força no decorrer do primeiro e do segundo terceto. No segundo quarteto valendo-se de uma metáfora, diz que "O Pensamento" é um "turbilhão de lava", uma ideia leve,/que, perfuma e clarão, refulgia e voava".

Considerações finais

A Forma é um "sepulcro de neve", "fria e espessa", "palavra pesada". As imagens mostram que a forma é a prisão do pensamento; este fervilha, carregado de emoções, enquanto a forma esfria-o e sepulta-o. Por meio das antíteses (turbilhão de lava/sepulcro de neve, palavra pesada/ideia leve), o poeta torna mais evidente a angústia da criação, a dificuldade de encontrar as palavras para expressar sentimentos e emoções que costumam ser indescritíveis.( P. J. F. )

Trechos

TEXTO IV


Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada / E triste, e triste e fatigado eu vinha,/ Tinhas a alma de sonhos povoada,/ E a alma de sonhos povoada eu tinha.../// E paramos de súbito na estrada/ Da vida: longos anos, presa à minha/ A tua mão, a vista deslumbrada/ Tive da luz que teu olhar continha./// Hoje, segues de novo... Na partida/ Nem o pranto os teus olhos umedece,/ Nem te comove a dor da despedida./// E eu, solitário, volto a face, e tremo,/ Vendo o teu vulto que desaparece/ Na extrema curva do caminho extremo.

TEXTO V

Noite ainda, quando ela me pedia/ Entre dois beijos que me fosse embora,/ Eu, como os olhos em lágrimas, dizia:/// "Espera ao menos que desponte a aurora!/ Tua alcova é cheirosa como um ninho…/ E olha que escuridão há lá por fora!/// Como queres que eu vá, triste e sozinho,/ Casando a treva e o frio de meu peito/ Ao frio e à treva que há pelo caminho?/// Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!/ Não me arrojes à chuva e à tempestade!/ Não me exiles do vale do teu leito!/// Morrerei de aflição e de saudade…/ Espera! até que o dia resplandeça,/ Aquece-me com a tua mocidade!/// Sobre o teu colo deixa-me a cabeça/ Repousar, como há pouco repousava…/ Espera um pouco! deixa que amanheça!"/// - E ela abria-me os braços. E eu ficava.

Os versos decassílabos trazem as súplicas dum eu lírico que insiste em não abandonar o quarto da amada. Há belas imagens, como por exemplo, as que estão na terceira estrofe, onde o sujeito-lírico indaga à mulher como ele poderá unir o frio e a treva da noite com o frio e a treva que lhe invadem a alma.

TEXTO VI

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,/ O que a boca não diz, o que a mão não escreve?/ - Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,/Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava.../// O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:/ A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve.../ E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,/ Que, perfume e clarão, refulgia e voava./// Quem o molde achará para a expressão de tudo?/ Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas/ Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?/// E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?/ E as palavras de fé que nunca foram ditas?/ E as confissões de amor que morrem na garganta?!

SAIBA MAIS

MOISÉS, M. Literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1997

BOSI, A. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006

ABDALA JUNIOR, Benjamin (org.). Antologia de Poesia Brasileira. São Paulo: Ática, 1985

NICOLA, José de, INFANTE, Ulisses. Como ler poesia. Editora Scipione: 1988

BILAC, Olavo. Poesias. São Paulo: Martin Claret, 2006

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.