Ensaio

Aspectos do processo de construção textual

00:27 · 16.03.2013
A leitura de "Palavra por aí, à ventura" dissolve, logo ao contato inicial com a natureza de seus textos, a sua identificação como prosa ou poesia, pois se o ritmo é a condição essencial do verso no poema, aqui, o ritmo não se desprende da suposta prosa, e esta, mais do que o encadeamento lógico, faz-se representar, antes de tudo, pela musicalidade: (Texto VII).

Neste fragmento, assomam recursos muito mais inerentes às composições em poesia: as pausas dramáticas; a fragmentação sintática; a fusão entre aliterações e assonâncias; a presença recorrente de metáforas e de sinestesias.

O enredo

Se, na ficção, em geral, a ilusão de verdade, mais do que a veracidade do episódio apresentado, é que estendia a ponte entre o público e o espetáculo; se a organização dos acontecimentos é orientada pelo conflito - e este, por sua vez, mostra-se em partes: exposição; complicação; clímax; e desenlace; tal não ocorre quando, em determinadas narrativas, os fatos não advêm de atos praticados por personagens, mas, sim, de ondulações psicológicas: (Texto VIII)

As personagens

Responsáveis pela representação no enredo, por mais que se revelem de carne e osso, as personagens brotam da imaginação do narrador; desse modo, seus traços físicos, psicológicos, sociais, ideológicos, morais etc funcionam como alegoria do mundo que cerca o leitor; isto é, extraídas da realidade, dizem muito mais desta do que os próprios atores da cena cotidiana.

Neste livro, "Palavra por aí, à ventura", de Inez Figueredo, as personagens, não obstante a movimentação em cena, mais do que representação de pessoas, corporificam a arte; são, portanto, palavras, sons, cores, texturas, vivenciando a trama de outro enredo, oriundo da essência da criação, do estado pastoso de que se reveste a subjetividade: (Texto IX)

Leitura

O interesse maior, inscrito neste fragmento, recai sobre a problemática da natureza da arte. O ato de estalar "os dedos" dá início a um exercício de compreensão de um tormento anterior, de uma angústia que, até então, corroía a personagem. É como se, assim, recuperasse a discussão acerca da gênese da ideia.

A personagem, agora, entregue a um êxtase, sofre uma catarse e desta sai liberta pela epifania, quer dizer, pela revelação de que a criação artística - o Verbo -, ao ganhar um corpo, impõe-se como ser vivo e singular. É, pois, o indício de uma plenitude: a partir do exorcismo do duplo, dá-se a reconciliação consigo mesmo. (Aqui, o emprego do termo "epifania" diz respeito tão somente à sua concepção literária, e não a um caráter místico; ou seja, ressalta o haver de uma experiência, que, não obstante fruto de um episódio trivial, torna-se perturbadora, conduzindo a personagem a uma atitude, até então, absolutamente inesperada.)

Recursos expressivos

A escritura de Inez Figueredo, ao recortar elementos da realidade circundante e ao atribuir significações aos seres e às coisas, insere-se no universo da verdadeira literatura, vista como o espaço em que se instaura o entrelaçamento entre a conciliação e o inconciliável - promoção da linguagem quando, neste momento, atinge o ápice da inauguração.

A arte - em quaisquer de suas encarnações - constitui o anúncio de um novo olho sobre o que, antes, escondia-se sob a crosta do imperceptível. Na literatura, em especial, isto se origina de surpreendentes pactos que as palavras fazem umas com as outras, em dissoluções ou edificações.

A dissolução - antes aqui discutida - de fronteiras rígidas entre prosa e poesia é mais evidente quando o leitor depara o predomínio da função poética; em outras palavras -, neles o fator maior reside na mensagem. Isto inerente, é claro, à seleção e à combinação lexical - o que conduz o leitor, de modo indelével, em direção ao estranhamento, consoante o fragmento a seguir, que aponta, com plenitude, este traço (Texto X)

Leitura

A personagem "ela" surge, abruptamente, no espaço da trama, sem qualquer indício anterior, exatamente para a instauração, no leitor, de um leque de questionamentos: "Quando ela chegou". Seus traços físicos são tingidos pelo emprego da metáfora: "cabelos cor de abóbora"; a indumentária - "saia verde enfeitada de musgos" -, por sua vez, alude à integração com a natureza; não à tão, a atmosfera do lugar é banhada por pétalas e aromas. Esta personagem ganha aura mí(s)tica, a partir da enumeração de termos que integram a mesma constelação semântica do sagrado: "Receberam-na", "cintilantes", "habituado" , "promessa" e "Castigo". Também aos que já "se haviam habituado" (a esperá-la, pois "promessa") dava-lhes "asas", e esses podiam beber a sensação da transcendência. A música e a dança lançam todos na mesma embriaguez. Há luzes e trevas nos contornos desta "ilusão". E tudo alimento do devaneio.

Trechos

TEXTO VII

Sobre o negro espaço da faixa intermitente; sob fixos rubis, imensos olhos tresnoitados, à sua frente, parou. E pensou num cálice. De cristal, por suporto; o mais fino possível e de uma transparência absoluta. Com a forma do bulbo da tulipa, flancos arredondados para que se fizesse possível, ao líquido, acomodar-se. A boca ligeiramente retraída para que, aos aromas, fosse possível concentrar-se e, assim, aos sentidos realçar todas as qualidades do vinho: à visão, ao olfato, ao paladar, ao tato. ("Eidos, o vampiro vermelho que translineava - um conto urbano - ", p. 115)

TEXTO VIII

Organsim sempre soubera-se o primeiro fio oposto ao tear do mundo azul que lhe rodeava. Buscara, pacientemente, o outro fio, no entanto, torcendo-se no mesmo sentido e depois retorcendo-se em sentido contrário.

Era seu intuito mais caro orgasinar-se. Assim, lhe seria possível entrelaçar-se, multicolorir-se, formar urdidura. Ingerir o liquor bipolar das nuances e tons secretos daí resultante era seu sonho recorrente. Induziu-se a crer, portanto, que se ali, naquele Baú, não estivesse o símile, em nenhum outro lugar estaria. Até aquela noite prateada e a chegada, de improviso, do insano vento que mundo o nome das coisas e a razão e os fatos. ("Organsim - ao fascínio das palavras e das coisas" -, p. 139-0)

TEXTO IX

Estalou os dedos e passou a emendar as tiras, até dar ao pensamento uma feição própria: O que faz brotar a palavra é o que se finca, como um pegão, sob ela. Na junção entre o dito e o que se quer dizer. Lá onde as setas, as cruzes, as rodas, as grafitagens e os garafundos estão em vias de fugir dos muros; de estilhaçar os casulos e voar. É aí que surge a Palavra.

Quando se deixa de dizer - CHOVE - em tom impessoal e passa-se a sentir os bicos dos seios colados à blusa molhada e os cabelos grudados às orelhas, à nuca e aos ombros - EU SOU A QUE CHOVEU-SE TODA -, diz-se, então. E, toda inteira, a palavra nasce. Ela vem daí. Eis o berço primevo e o jazigo eterno da Palavra: EU SOU. ("Os passos do verbo", p. 102)

TEXTO X

Quando ela chegou com os cabelos cor de abóbora e a saia verde enfeitada de musgos, o ar coloriu-se de purpurina ciclamen e roxo-vivo. Receberam-na com vivas e olhos cintilantes, pois se haviam habituado e era, na verdade, como uma promessa de viagem costa a baixo. Castigo era não vê-la; competiam pelas asas que ela lhes doava e planavam entre o trago e a fantasia.

O bandoneón sugeria e a milonga saltitava escorrendo pelo assoalho lustroso. Desejos rivalizavam com insetos estranhos e minúsculos; fulguravam na luz ou exilavam-se na sombra. Viam-se através das coisas. Capturava-se o inusitado entre os balcões, aparadores e vidros coloridos.

Ocorria singular metamorfose: uma flecha no ar, uma estrela cadente, um arco-íris ilimitado; todos adornados de ilusão. ("Naquela noite, um porto qualquer", p. 61)

SAIBA MAIS

ADORNO, Theodor W. Notas de literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991
FIGUEREDO, Inez. Palavra por aí, à ventura. Fortaleza: LCR / Edições Poetaria, 2011
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992
LOTMAN, Iuri. A estrutura do texto artístico. Lisboa: Estampa, 1978
SOUZA, Roberto Acízelo. Teoria da literatura. São Paulo: Ática, 2011

CARLOS AUGUSTO VIANA

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.