As velas de Raimundo Cela ancoram no Ceará

Após temporadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, exposição "Raimundo Cela - Um mestre brasileiro" entra em cartaz no Museu de Arte Contemporânea do Ceará nesta quarta-feira, 18

"Rolando a jangada para o mar" (1941): pescadores marcam a obra do pintor cearense
00:00 · 16.01.2017 por Mayara de Araújo - Especial para o caderno 3
O óleo sobre madeira "Duas épocas", datado de 1954, representa as produções da última fase do pintor. A obra é uma das muitas pertencentes ao Museu de Artes da Universidade Federal do Ceará (Mauc) a compor a exposição.

O óleo sobre madeira "Duas épocas", datado de 1954, representa as produções da última fase do pintor. A obra é uma das muitas pertencentes ao Museu de Artes da Universidade Federal do Ceará (Mauc) a compor a exposição.

Um artista duplamente interrompido. É difícil supor até onde teria chegado a obra do sobralense Raimundo Cela (1890- 1954) se duas circunstâncias trágicas não o tivessem abatido. A primeira, um Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido no ponto alto da carreira como pintor e gravurista.

As luzes restauradas de Cela

Trocara o Ceará pelo Rio de Janeiro nos idos de 1910 a fim de cumprir duas sinas: cursar a Escola Nacional de Belas Artes, por desejo próprio; e a Escola Politécnica para formar-se engenheiro, vontades do pai.

Em 1916, participa pela primeira vez do Salão da Escola de Belas Artes e é contemplado com uma viagem a Paris graças ao óleo sobre tela "Último diálogo de Sócrates". Em terras francesas, sua pintura acadêmica toma outros rumos. A precisão nos traços e habilidade de colorista voltam-se aos anônimos: estivadores, ferreiros, funileiros - a massa comum de trabalhadores às margens do rio Sena.

O cearense entalhava seu nome entre os críticos parisienses, com obras selecionadas para o Salon des Artistes Français, quando, num arroubo, não mais pincéis, telas e tintas. O Acidente, a cama de hospital. O infortuito problema de saúde silenciaria por anos o ritmo e as cores, tão característicos do trabalho de Cela, posto que lhe prejudicara a visão. Logo ela, parceira fiel das mãos precisas.

Após o AVC, Raimundo resigna-se em Camocim, no litoral oeste cearense, onde atua como engenheiro, infelizmente abandonando as artes. Sete anos após a enfermidade, porém, recobra as forças e, como se retornasse exatamente do ponto em que parara, volta a retratar trabalhadores - dessa vez, os de sua terra, aqueles que se atrevem no ofício de domar a natureza com os próprios punhos - pescadores, vaqueiros, jangadeiros. Muda-se para Fortaleza (onde toma gosto pelas jangadas, que marcariam sua obra) e, dali, para Niterói (RJ), regressando já como professor da Escola Nacional de Belas Artes, onde fora estudante.

Havia acabado de ser premiado com uma medalha de ouro no Salão Nacional de Belas Artes quando é atingido pela segunda ruptura - esta a definitiva, talho inevitável no correr da vida - quando falece, em 1954, precocemente aos 64 anos. "Ouso dizer que o Brasil não teve nenhum gravurista em metal como Raimundo Cela. Imagine se não tivesse passado anos sem produzir ou se não tivesse partido cedo. O ritmo, o movimento e as cores de Cela são impressionantes. Deixou os paulistas de queixo caído", afirma Denise Mattar, curadora da exposição "Raimundo Cela, um Mestre Brasileiro", que, após temporadas em São Paulo e Rio de Janeiro, entra em cartaz no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) a partir desta quarta (18), onde permanece até 26 de março. Amanhã (17), uma vernissage para convidados marca a abertura dos trabalhos.

Idealizada pela Galeria Almeida e Dale e com patrocínio da Minalba, a exposição reúne 75 obras do pintor, entre desenhos, gravuras, aquarelas e pinturas. "Em São Paulo, na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), reunimos 145 obras, pelo tamanho da galeria. Para Rio de Janeiro e Fortaleza, montamos uma exposição um pouco menor, com 75. Retiramos alguns desenhos, principalmente, mas as peças essenciais para o conjunto estão presentes", detalha a curadora.

Prospecção

Ao deitar os olhos nas telas do cearense, Denise Mattar percebeu a relevância de retirá-lo das sombras. "No Ceará, Raimundo Cela já era reconhecido, mas no eixo Rio-São Paulo ainda não", avalia.

De fato, as repercussões da mostra impressionaram a curadora. "Conseguimos mobilizar muitos críticos, formadores de opinião, em São Paulo, e, para você ter uma ideia, as gravuras do Cela foram comparadas às do Goya", comemora.

A trajetória do artista determina o fio condutor da exposição, que a contempla a partir de momentos-chave: o prêmio da Escola Nacional de Belas Artes, a viagem à Europa, o retorno a Camocim, a mudança para Fortaleza e a volta ao Rio de Janeiro.

Trabalhos diversos, em todas essas fases, permitem compreender o processo criativo do sobralense. "Como eu ia apresentar um artista desconhecido em São Paulo, era fundamental que fosse uma retrospectiva, que abarcasse toda a obra dele", explica Denise.

O desconhecimento do artista, segundo ela, dava-se principalmente por que boa parte de seu acervo está ou no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc), em Fortaleza, ou pulverizada em coleções particulares. Assim, um dos aspectos mais ricos da exposição é congregar estas peças, que somente poderão ser vistas juntas na mostra.

Além dos trabalhos do Mauc, compõem a exposição trabalhos do Instituto Dragão do Mar, do Palácio da Abolição e do Palácio Iracema, todos na capital cearense; do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro; e de 15 coleções particulares de Fortaleza, Rio e São Paulo.

Mais informações 

Exposição“RaimundoCela,um mestrebrasileiro”. Curadoriade DeniseMattar. De 18 de janeiro a 26 de março, no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC), no CDMAC (R.DragãodoMar, 81, Praia deIracema). Vernissage amanhã (17), das 19h às 22h (acesso até 21h30),para convidados. Contato: (85)3488.8600

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