desenho

As várias faces da animação

Entre temas, técnicas e paixão, a atividade conta com bons profissionais no Ceará, e produção efervescente

00:00 · 10.03.2018
Seja para TV, cinema, HQ ou games, todo trabalho começa no papel; a partir daí mercado requer diferentes técnicas; acima, ilustração de João Bosco

No ocidente, o universo dos super-heróis é uma das grandes searas da produção de quadrinhos e de animação. "Gosto de falar que os quadrinhos são uma forma de expressão com várias semelhanças com o cinema. Basta ver que os maiores blockbusters hoje são filmes de heróis", explica João Bosco, ilustrador que mora em Fortaleza e já produziu jogos de cartas para títulos como Star Wars e Game Of Thrones.

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O filme "Pantera Negra" (2018), por exemplo, em sua primeira semana de estreia bateu recordes de público e se consolidou entre as 10 maiores bilheteria mundiais, agora alcançando o nono lugar, ultrapassando o longa "A Bela e a fera" (2017). Filmes de heróis acabam por divulgar massivamente a cultura geek e estimulam o consumo de jogos, brinquedos e outros produtos ligados e esse universo. Segundo a Diamond - empresa responsável por realizar a distribuição dos quadrinhos em comic shops no mercado norte-americano, a HQ mais vendida em 2017 foi "Marvel Legacy", com 323,60 mil cópias. "A imagem e o texto contam uma história juntos, a imagem simula movimento. Quando crio cenas de quadrinhos me inspiro muito em cinema e animação pra pensar em enquadramentos", compara Bosco.

Dando vida

O desenho é uma das artes-base para a animação em geral, cuja trajetória e desenvolvimento fundamenta-se em duas técnicas: a tradicional, feita à mão frame a frame, segue como a mais antiga forma de realizar desenhos animados e "uma paixão" para os profissionais de hoje.

Já a animação digital é criada a partir do computador. Não raro as duas técnicas se misturam. "A gente que trabalho com o digital acaba apelando muito para a animação tradicional", explica o motion designer Igor Pontes, que trabalha na TV Diário.

Na criação de vinhetas, por exemplo, os hoje chamados especialistas em motion graphics (antigos videografistas) desenham tudo no papel antes e criam um storyboard (esboço parecido com aqueles feitos para HQs), mostrando cena por cena.

Após essa etapa, os desenhos passam pelo processo chamado animatic - que é fazer uma animação mais grosseira no computador, com o objetivo principalmente de medir o tempo das ações.

Depois disso acontece a finalização dos desenhos no computador, depois a animação e em seguida a renderização - quando ocorre a correção de cores e efeitos. Uma vinheta de 15 segundos, por exemplo, pode levar até um mês para ser produzida.

Games

O processo de animar jogos de videogames, por sua vez, tem grandes semelhanças com o da animação televisiva - na qual o profissional trabalha com um take completo e os movimentos são criados de forma conjunta. A história tem um começo, meio e fim. Já nos jogos faz-se um movimento por vez. Em um jogo de luta, por exemplo, primeiro cria-se o movimento de andar, finalizado na sequência. Depois o profissional cria e finaliza outro movimento - de um chute, por exemplo.

"Isso é pensado para uma programação de acionamentos de inputs (comando acionado pelo jogador). Esses movimentos são chamados loops fechados, mas sempre há exceções", aponta André Lima, sócio fundador da Onanim, empresa de games do Ceará.

Outra diferença é que na animação para games boa parte do processo é centralizado, pois o objeto não se move pela tela. Na TV, ela precisa se mover. Mas isso está mudando, com jogos cada vez mais evoluídos no quesito realidade. "É cada vez mais comum fazer a animação 'movida' mas aí entra uma outra questão: a movimentação precisa ser contínua para ser programável", explica André Lima.

Além de comerciais, vinhetas e até mesmo o cinema, animações também estão nas plataformas de vídeos. Um dos destaques citados por Igor Pontes é o Estúdio do Beach Park que produz uma web série animada para seu canal do YouTube e usa profissionais cearenses.

Na produção dos jogos no Brasil, as vendas sempre acontecem para fora do País, isso devido à pirataria e à pouca divulgação dessas criações. As principais plataformas de vendas são a Gog, Nuvem e Steam. Os desenvolvedores colocam seus jogos e recebem uma porcentagem da venda.

Há também os publishers, que vendem seus próprios jogos na internet, sem precisar dessa intermediação. Agora, os publishers estão se juntando às plataformas de vendas, e ganharam a função de promover os games, "porque uma coisa é colocar o jogo lá, outra é fazer ele ser notado. O mundo todo coloca jogos nessas plataformas e a gente concorre contra empresas milionárias, bilionárias como Capcom, Microsoft e Sony", explica André.

Música

Embora haja especificidades pra musicar uma animação e um jogo de videogame, o processo é bem parecido. A grande diferença fica no enredo, nas personagens, nas temáticas repassadas para o compositor musical. Independente de ser animação ou jogo, os profissionais trabalham com duas linhas de áudio, a BGM, trilhas de música de fundo e os efeitos sonoros, os barulhos.

A trilha sonora composta para uma animação acaba por ter que começar do zero, já que não existe som ambiente. Para isso, Ernesto Janebro, músico, compositor e game designer, explica que para desenvolver a parte musical é necessário um enredo e storyboard da história.

"Pensamos em movimentos e padrões musicais de emoção de acordo com as guias visuais e posteriormente, pensamos nos efeitos sonoros, de acordo com as ambientações de cenas", explica.

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