Ensaio

As sutilezas do discurso lírico de Manoel de Barros

00:00 · 02.03.2014

Com grande habilidade artística para trabalhar a linguagem – Manuel de Barros é, antes de tudo, um poeta singular

Manoel de Barros é, inegavelmente, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Capaz de fazer trabalhos verdadeiramente artísticos com a linguagem, o poeta não perde a sutileza característica de sua poesia. A sua linguagem traz à tona uma condensação de seu universo poético, fruto de sua imaginação forte e criativa. Os significados são, quase sempre, ressignificados, transpostos para um novo universo semântico, e a metáfora aparece como chefe de suas associações semânticas transformadas e de suas construções sintáticas inusitadas. Desde seu primeiro livro, publicado em 1937, nota-se a conjunção da poesia de Barros com os ideais do Modernismo Brasileiro. As rimas são variadas. E os versos, polimétricos ou livres. As rimas são, em geral, toantes, mostrando predileção pelos valores estéticos do movimento modernista.

A abertura

Em "Poemas concebidos sem pecado"(1937), há uma espécie de grande síntese do que o autor se propõe a fazer em sua obra de estreia. O poeta se utiliza de metáforas insólitas e para ressignificar os sentidos e parece entrar, inadvertidamente, no universo interior de seu leitor, traduzindo os sentimentos deste, como é observável nos versos de "Maria-pelego-prego": (Texto I)

Já no título do poema, é importante atentar para o uso da palavra pelego, que, denotativamente, refere-se à pele de carneiro a que a lã fica aderida. Há, assim, a representação dos pelos de Maria como se fosse um pelego, uma pele de carneiro. Metaforicamente, pode-se fazer referência ao significado da palavra como uma pessoa servil, dominada por outra. Relaciona-se, assim, a subserviência de Maria aos valores do patriarcado, representado pelo "senhor respeitável" que criticou a atividade da moça e de seu pai. É neste momento, quando o senhor fala sobre a indignidade do que Maria estava fazendo, que há uma quebra semântica no poema: o leitor, que era levado pelas críticas do patriarcado é, abruptamente levado aos problemas sociais, presentes na margem da sociedade: a fome. Aí, também, observa-se a presença dos valores patriarcais, pois Maria era a responsável pelo sustento da família, precisando se utilizar da exposição de seu corpo para isso. O uso da palavra pente traz à tona o poema Água-forte, de Manuel Bandeira, que tem cunho erótico e sensual.

Ao contrário desse, o poema de Manoel de Barros, nada tem de erótico ou de sensual, e sim, de uma crítica aos problemas presentes na sociedade marginal. Nessa obra, Manoel de Barros faz várias referências aos conflitos bélicos. Especificamente no poema "Os girassóis de Van Gogh", se utiliza de versos polimétricos, tendo em vista que, embora os apresentem métricas diferentes, as sílabas poéticas estão dentro de certos padrões de tonicidade, dente inúmeros outros recursos: (Texto II)

Leitura do poema

O poeta se utiliza de construções sintáticas inusitadas, cria um universo de novos sentidos para as palavras, como em mulheres mastigando esperanças mortas. Há, ainda, referência intertextual com a obra Doze girassóis numa jarra, de Vincent van Gogh, acabada em 1888. Foi nesse ano também, que o pintor, sucumbindo à depressão, cortou parte de sua orelha esquerda. Observa-se, através dessa intertextualidade dois aspectos principais: o mais fácil de se perceber diz respeito a todos os sentimentos ruins trazidos pela guerra, que levam o homem a um profundo estado de tristeza e de desespero; o outro refere-se ao fato de que, mesmo com sua obra mais famosa ter sido finalizada com o pintor ainda em vida, Van Gogh só passou a ser mais conhecido após sua morte, fato que também ocorre com os soldados em guerra.

Do Curso de Letras da Uece

Eleonora Lucas de Morais
Especial para o ler

FIQUE POR DENTRO
Uma poética da guerra: facetas de uma escritura

Na obra Face Imóvel (1942), Manoel de Barros traz à tona a temática das guerras, dos conflitos bélicos e das mortes causados por esses. É interessante notar que, no ano de publicação dessa obra, houve vários eventos importantes relacionados à Segunda Guerra Mundial, como o fim da Batalha de Moscovo e o início da Batalha de Stalingrado. É importante ressaltar, entretanto, que não só de guerra é feito esta obra - Face Imóvel¬ - , mas, também, de temas como o amor, a infância e o cotidiano, como em "Prefácio": Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) - / sem nome/ Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé./ Insetos errados de cor caíam no mar./ A voz se estendeu na direção da boca./ Caranguejos apertavam mangues./ Vendo que havia na terra/ dependimentos demais/ e tarefas muitas - / os homens começaram a roer unhas./ Ficou certo pois não/ que as moscas iriam iluminar/ o silêncio das coisas anônimas./ Porém, vendo o Homem/ que as moscas não davam conta de iluminar o/ silêncio das coisas anônimas - / passaram essa tarefa para os poetas.

Trechos

TEXTO I

Maria-pelego-preto, moça de 18 anos, era abundante de/ pelos no pente./ A gente pagava pra ver o fenômeno./ A moça cobria o rosto com um lençol branco e deixava/ pra fora só o pelego preto que se espalhava quase até pra/ cima do umbigo./ Era uma romaria chimite!/ Na porta o pai entrevado recebendo as entradas.../ Um senhor respeitável disse que aquilo era uma/ indignidade e um desrespeito às instituições da família e da/ Pátria!/ Mas parece que era fome. (p.22, em Poemas concebidos sem pecado)

TEXTO II

Hoje eu vi/ Soldados cantando por estradas de sangue/ Frescura de manhãs em olhos de crianças/ Mulheres mastigando esperanças mortas / Hoje eu vi homens ao crepúsculo/ Recebendo o amor no peito./ Hoje eu vi homens recebendo a guerra/ Recebendo o pranto como balas no peito. / E como a dor me abaixasse a cabeça,/ Eu vi os girassóis ardentes de Van Gogh.(p. 36, em Face Imóvel, 1942)

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.