Romance

As relações familiares e a força da alegoria

00:54 · 24.08.2013
Desenrolam-se os fios por que se compõem os ambíguos novelos das relações afetivas e familiares

A partir de um ponto de vista externo, isto é, o foco narrativo em terceira pessoa, a trama é conduzida por uma voz onipresente e onisciente; desse modo, o narrador domina não somente a teia que envolve todos os acontecimentos, mas, e sobretudo, os motivos internos que, de um forma ou de outra, norteiam as atitudes das personagens; estas, por sua vez, surgem, ao longo de todo o romance, quase sempre, de modo abrupto, ou seja, são lançadas no enredo, sem, para isso, haja uma preparação maior no encontro com o leitor. Assomam, assim, naturalmente, como se fizessem desde muito, parte dos elementos configuradores do conflito.

Detalhe da capa do romance "A Menina que Semeava", de Lou Aronica. A narrativa envolve uma série de situações em que o mundo real é invadido por elementos ligados à expressão do maravilhoso, o que dá cores novas ao conflito

A abertura

Logo na primeira cena, tais recursos de construção ganham relevo: "O zunido suave do aparelho de DVD era o único som que se ouvia na sala. Chris estava sentado no sofá em frente da televisão, com o controle remoto na mão, embora não pretendesse usá-lo. Ele deixaria o aparelho continuar rodando ininterruptamente". Entanto, ao contrário do que se poderia esperar, não se tratava de um filme de suspense, de amor ou de ação, mas, sim, da reprodução de uma gravação caseira: o pai contempla imagens da filha, e, principalmente, o raro momento em que a menina conseguia relaxar temporariamente para um cochilo no peito paternal.

O enredo

Aos quarenta e poucos anos, o protagonista Chris Astor vive o ápice de sua carreira profissional, já que alcançara o reconhecimento de seus pares e da comunidade científica como botânico; entretanto, vê-se, subitamente, fincado a uma fatalidade: sua filha, Becky - esta com a idade de quatorze anos -, já, não obstante a pouca idade, enfrentou inúmeros desafios; quando pequena, foi ameaça por um câncer, ocasião em que o pai, deslocando-se parcialmente dos compromissos objetivos a seu redor, dedicou-se inteiramente a ela, criando, inclusive, em torno deles um mundo à parte, cujos pilares eram os apelos da fantasia, e esta se misturava à realidade: "A imaginação cria coisas infinitas. Uma parte de seu cérebro lhe dizia que não seria possível essa mulher ser quem ela achava que fosse, mas então a outra parte a lembrou que nada daquilo deveria ser possível." Inúmeros são, assim, os estranhamentos.

Recursos expressivos

Alternando diálogos, ações e descrições que, em rápidas pinceladas, nos dizem da atmosfera em que se desenvolve o enredo ou dos elementos configuradores das personagens, o romancista, habilmente, delimita os espaços em que o leitor poderá, sem grandes esforços, deparar as fronteiras entre os acontecimentos que pertencem aos ditames do delírio e os dizem respeito às concretas vivências do cotidiano. Há uma personagem à parte: Miea (esta nasceu da imaginação do pai da menina, quando esta enfrentava o câncer), pois, de personagem de ficção, ela ganha corpo na vida real, integra-se à relação familiar, e, por haver se incorporado aos fatos cotidianos, converte-se, assim, num problema, cuja solução não se descortina aos olhos dos outros protagonistas. A interrogação que a todos envolve é: como foi possível o encontro entre dois mundos, que, a rigor, estão inexoravelmente separados? Um dos elementos-chave para a compreensão da trama é descortinar a intensa presença da alegoria, fruto dos constantes jogos metafóricos.

Considerações finais

Entre a fantasia de um romance e um romance de fantasia, a sua leitura aponta, deveras, para a possibilidade de o narrador haver se utilizado do recurso de escrever uma coisa para, a rigor, representar outra. O cerne do conflito reside no difícil entrelaçamento entre o mundo adulto e o infanto-juvenil. Nesse sentido, saltam aos olhos do leitor os motivos eternos: ambição, vaidade, egoísmo, esperança, desespero, culpa, remorso, amor, desamor etc. Quando juntos, pai e filha enfrentam desafios os mais diversos, conhecem, ao mesmo tempo, as fragilidades do que une, mas também separa os humanos.

LIVRO

A Menina que Semeava
Lou Aronica
NOVO CONCEITO
2013, 416 Páginas
R$ 29,90

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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