Ensaio

As perdas recuperadas pelo exercício do poético

00:00 · 26.10.2014

Há, na poesia de Carlos Drummond de Andrade, uma busca, quase numa obsessão, do pai, representado, pela primeira vez, na quarta estrofe do "Poema de Sete Faces", através da imagem daquele "homem" que se esconde "atrás dos óculos e do bigode". Na atmosfera do poético, pai e filho experimentarão todas as afetividades que um silêncio entre eles não permitiu que aflorassem.

Uma vez solto no "mundo grande", quando passa a enxergar-se não somente a si mas também o semelhante, o poeta passa a compreender a dimensão do "estar-no-mundo", a necessidade de vivenciar contatos, o valor da solidariedade o diamante da doação. Constitui-se, naturalmente, num caminho tortuoso, como bem caberia a um gauche.

A princípio, a descoberta de que, em sua família, as relações eram apenas exteriormente tranquilas, como no poema "Infância", (PP, p.5) em que um "mosquito" poderia perturbar o sono do irmão que dormia, fez nascer nele, poeta, uma gama de sentimentos, oscilando entre desprezo ("Oh que saudades não tenho / da minha casa paterna. / Era lenta, calma, branca...") (PP, p. 81-82) e remorso, este, principalmente, em relação ao pai, conforme os versos do poema "Rua da Madrugada" (Texto III)

Dos símbolos

Aqui, os dois primeiros versos delineiam, primeiramente a partir do som e depois através do movimento, uma atmosfera simbólica. Tomado de remorso, deseja "corrigir o tempo", isto é, recuperar, através do poético, a perdida emoção que ambos, pai e filho, antes, não ousaram concretizar. É que, com o tempo, vem ao autor o entendimento de que, se na família havia o desrespeito à individualidade, à liberdade do outro, se a aparente serenidade contrastava com o vazio interior, os laços afetivos também existiam, apenas não eram exteriorizados por conta dos próprios padrões rígidos por que se regia o lar. Diante disso, através da poesia, realiza-se a pacificação conforme os versos do soneto "Encontro" (Texto IV)

Leitura do poema

O primeiro verso desse poema baseia-se no contraste entre "tempo" e "sonho", respectivos abrigos das ideias de perda e recuperação. Inexorável, o "tempo" inscreve-se aí como força devassadora, responsável pela decomposição do palpável, do corpóreo. Muito maior, entretanto, é o poder do "sonho". Imperiosa, "a noite" conduz o eu lírico em direção à fantasia, em que, através do olhar, (aquele capaz de penetrar "no reino das palavras" - PP, p.96) pode decifrar, minuciosamente, com agudeza, as ocultas expressões do pai.

No segundo quarteto, a passagem "Está morto, que importa?" traduz, com plenitude, a natureza desse "Encontro": um mergulho na essência das coisas, pois, se o corpo nada mais é do que a representação do efêmero, é acima do sofrimento e do gozo que "o rosto, antigo, o mesmo", é visto e revelará a impassibilidade daquele homem de "poucos, raros amigos"; pacificado, o pai já "não enxuga / suor algum", dado o poder do sonho.

Nos dois últimos tercetos, assoma a figura do pai como "arquiteto e fazendeiro", fazendo que brotem de sua mão forte as "casas de silêncio" e "roças" que, mesmo "de cinza", ainda "estão maduras", regadas por um "rio" que ultrapassa as fronteiras do "tempo". Já o eu lírico, no mundo decadente e vulnerável, contempla, ao seu redor, roças murchar por "fontes represadas". Quanto ao conflito entre o eu lírico e as relações familiares, parece-nos ainda pertinente a leitura de fragmentos do poema intitulado "Retrato de Família" (Texto V)

A reiteração de "empoeirado(s)", marca o contraponto entre a exterioridade e a interioridade. A partir de um "retrato de família", que congelou no tempo a impetuosidade do patriarcalismo, as cenas exteriores são simplesmente disfarces para uma investigação do que, efetivamente, sobreviveu a tudo, ou seja, do que no eu lírico permanece inviolável e indestrutível. Naquele retrato, o "rosto do pai" já não traz em si dados objetivos de uma realidade concreta, pois não mais revela "quanto dinheiro ele ganhou", submetido que está à corrosão a ele imposta pelo tempo.

"Retrato de Família", como um todo, é constituído por fragmentos de personagens ("tios", "avó", "os meninos") e de paisagens ("o jardim", "as flores") que, uma vez articuladas, compõem um universo cuja reedificação está submetida, e por completo, ao jugo da memória transmudada pela poesia.

As pelejas

É no mundo interior do ambiente retratado que reside a "malícia das coisas", matéria sondada pela subjetividade do autor, mas somente os mortos têm ciência de tal malícia, e ao poeta nada revelam. No retrato, as imagens dos "mortos e vivos" já não mais se distinguem umas das outras sob os olhos obstinados na contemplação. E o poeta, em sua precariedade, percebe "apenas / a estranha ideia de família", infinitamente, "viajando através da carne".

O deslocamento do último verso para que sozinho componha a última estrofe do poema não é, evidentemente, um recurso de que o poeta se serviu por acaso. Tem a função estética de, aliado à ideia de prolongamento já pertinente ao gerúndio, emitir a impressão da viagem continua e carnal da "família", transmitindo-se os caracteres dos antepassados aos pósteros.

Considerações finais

Desde a sugestão da figura do pai no "Poema de Sete Faces", a ligação com a família estará, para sempre, inserida na atmosfera poética do autor. E, certamente, aquele "objeto desaparecido há trinta anos", e que o poeta procura em "No País dos Andrades", (PP, p.154) por considerá-lo seu "secreto latifúndio", não era só "outro país", nem o "governo o pilhou", nem o tempo o levou à corrosão. Seria, sobretudo, ao lado do chão perdido, a raiz das afetividades crescendo, tardia e inutilmente, no intervalo existente entre os gestos e o minério. (C. A. V.)

Trechos

TEXTO IIII

A chuva pingando / desenterrou meu pai /// Sabê-lo exposto / a esse bafo úmido / que vem dos recifes / e bate na cara, / desejar amá-lo / sem qualquer disfarce, / cobri-lo de beijos, flores, passarinhos, / corrigir o tempo, / passar-lhe o calor / de um lento carinho / maduro e recluso / confissões exaustas / e uma paz de lã.

(PP, p.148-149)

TEXTO IV

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. / Se a noite me atribui poder de fuga, / sinto logo meu pai e nele ponho / o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. /// Está morto, que importa? Inda madruga / e seu rosto, nem triste nem risonho, / é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga / suor algum, na calma de meu sonho. /// Oh meu pai arquiteto e fazendeiro! / Faz casas de silêncio, e suas roças / de cinza estão maduras, orvalhadas /// por um rio que corre o tempo inteiro, / e corre além do tempo, enquanto as nossas / murcham num sopro fontes represadas. (PP, p.237)

TEXTO V

Este retrato de família / está um tanto empoeirado. /; Já não se vê no rosto do pai / quanto dinheiro ele ganhou. /// A casa tem muitas gavetas / e papéis, escadas compridas. / Quem sabe a malícia das coisas, / quando a matéria se aborrece? /// O retrato não me responde, / ele me fita e se contempla / nos meus olhos empoeirados. / E no cristal se multiplicam /// os parentes mortos e vivos. / Já não distingo os que se foram / dos que restaram. Percebo apenas / a estranha ideia de família / viajando através da carne.

(PP, p.143-144)

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