Artes cênicas

As múltiplas faces do ator

Os conflitos existenciais de um artista são enfatizados no monólogo "Morte anunciada"

O ator Oscar Roney em cena: por meio de seis personagens, ele explora crises relacionadas ao ofício
00:00 · 14.02.2018 por Iracema Sales - Repórter

No monólogo "Morte anunciada" - cuja apresentação acontece nesta quinta (15), às 19h30, no Theatro José de Alencar -, o ator Oscar Roney aproveita a atmosfera intimista, que perpassa os 50 minutos do espetáculo, baseado no livro "Crônica de uma morte anunciada", do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), para trazer à tona questionamentos acerca da vivência do artista.

"São dois momentos apresentados na peça", explica Roney, acrescentando que a obra do autor de "Cem anos de solidão" funciona apenas como ponto de partida para a concepção cênica. A obra passeia por diversas temáticas, desde a fortuna literária de García Márquez, sem deixar de lado as dificuldades e os conflitos relacionados à profissão de artista, sobretudo nos momentos de criação.

No primeiro monólogo de sua carreira, o ator interpreta seis personagens que aparecem no romance, cuja história é ambientada numa cidade do interior. O protagonista é o jovem Santiago Nassar, morto a facadas, acusado de ter "desonrado" a jovem Ângela Vicário. O crime foi cometido pelos irmãos gêmeos da moça. Esse é o mote para a construção do monólogo, que aproveita o clima trágico da história para enveredar pela vertente da subjetividade. Roney vive a trajetória dramática do jovem assassinado.

Dessa maneira, a peça retrata o dia a dia do ator, que não está desconectado da realidade. É permeado por anseios, conflitos, descobertas, chegando a abrir mão de compromissos sociais, confessa Roney, ao levar ao público a crise de identidade do ator, que pode ser estendida aos criadores de maneira geral.

Em cena, ele interpreta como se dão as descobertas durante o processo de ensaio e construção de personagem. A proximidade com o público contribui para a compreensão da proposta cênica da peça, apresentada no I Festival Latino-americano de Monólogos (Vitória-ES), em 2014. Essa será a 12ª apresentação de "Morte anunciada".

Desafios

A peça, que tem como foco a interpretação, é marcada por desafios. O primeiro, definido por Roney como "uma honra", consiste em adaptar a obra de Gabriel García Márquez, trabalho realizado pela dramaturga Francinice Campos, que assina a direção.

O segundo, diz respeito à criação do texto, escrito e interpretado 85% em espanhol, sendo considerado bilíngue. Na realidade, o espetáculo apresenta os conflitos de um ator ensaiando, tendo como mote os personagens do livro. Na obra, o autor fala da morte na primeira página da história. O monólogo reúne elementos relacionados à psicologia e literatura.

E não são poucos os dramas existenciais vividos pelos personagens, conta o ator. "Ângela, que não queria se casar, após ser abandonada pelo marido, se apaixona por ele". A mãe de Santiago Nassar também experimenta o sentimento de culpa por ter fechado a porta da casa antes de o filho ter entrado.

O ator coloca o público no foco dos conflitos sofridos para a construção dos personagens, que são riquíssimos, argumenta Roney. Ele cita a preparação de corpo, voz, texto e interpretação. A peça enfatiza a multiplicidade de um ator, suscitando o debate em torno de sua identidade, daí a crise que durante toda a peça.

O mais difícil para os idealizadores foi a adaptação, ou seja, como transformar a história em monólogo, vindo em seguida a criação dos personagens. Todos impregnados de carga dramática, a começar pela moça, abandonada no dia do casamento, sendo devolvida a sua mãe, por não ser mais virgem.

O marido, um rapaz muito rico que chega ao povoado, acaba conquistando a família da noiva, que não queria se casar. A morte de Santiago Nassar é descrita como um espetáculo, sendo aguardada por todos da cidade. Apenas o acusado não sabia que seria vítima de uma tocaia pelos irmãos de Ângela.

Construção psicológica

A obra passeia por diversas temáticas: desde a fortuna literária de García Márquez, passando pelas dificuldades e conflitos relacionados à profissão de artista.

A construção psicológica das personagens do escritor colombiano inclui os costumes culturais dos moradores de uma cidade do interior, numa época em que a desonra de uma moça era cobrada com a morte.

O cenário é flexível, concebido para viagem - há elementos como mesas, cadeiras e folhas de papel. Naquele ambiente, o ator vive suas angústias mais íntimas, aparecendo em cena como se estivesse ensaiando. Essa crise é apresentada tanto no texto quanto na interpretação e nos elementos cênicos, além da trilha sonora e iluminação.

Mais informações:

Espetáculo "Morte anunciada",

Com o ator Oscar Roney e direção de Francinice Campos. Nesta

Quinta (15), às 19h30, no TJA (R. Liberato Barroso, 525, Centro). Ingressos: R$ 30 (inteira). Contato: (85) 3101.2583

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