Ensaio

As experiências do amor e da morte

00:40 · 10.08.2013
Da mesma forma que Alexandre O´Neill luta contra o medo utilizando-se de um discurso insistente no assunto, quebrando o silêncio imposto através do jogo de palavras, tem também como tema fundamental o amor. O amor sem regras, sem códigos morais e sociais e sim um amor proprietário, cheio de ocultismo que vai além da racionalidade e do real, como em "O amor é o amor" :(Texto III)

Tema frequente em sua obra, Alexandre O´neill retrata neste pequeno poema a dúvida que ele sente do que virá após o amor. Notamos isso quando ele usa pontos de interrogação e exclamação numa mesma frase, além das reticências que dão ideia de pensamento contínuo de quem não tem certeza do futuro.

Apesar de ser seu assunto preferido, O´Neill também tratou do tema "vida" de forma sarcástica, como se pode notar no poema "No Reino do Pacheco": (Texto IV)

Leitura do poema

Eis como deveria ser, a rigor, a expressão da vida. Não aquela vida só de pensamentos, de ideias e sim a vida com ações, com enfrentamentos reais. Ele retrata a vida de forma satírica, irônica, como age em todos os seus poemas. Segundo o eu poético, o bom da vida é que somos únicos e com ideias próprias. Insiste em citar que a nossa vida é efêmera e que ela passa tão depressa que não nos damos conta e de repente estamos velhos e nos arrependendo das coisas que não soubemos aproveitar: Vemos isso logo na primeira estrofe: "Às duas por três nascemos,/ às duas por três morremos./E a vida? Não avivemos. Ele ressalta que nossos ideais não devam servir a penas para exposição mas sim para serem colocados em prática e para que isso aconteça é necessário que nós libertemos nossos pensamentos e nossas emoções e o resto acontecerá livremente.

Da estrutura

Podemos dividir o poema em quatro movimentos principais: a primeira parte oé um terceto, onde o eu-lírico questiona o nosso tempo breve de vida, desde quando nascemos até quando morremos. A segunda parte é composta pela segunda e terceira estrofes onde ele cita que a vida mental é pobre uma vez que ela é feita apenas de pensamentos. A quarta e quinta estrofes formam a terceira parte. Esta explica que ter uma vida mental é se entregar à estupidez; para evitarmos isso temos que dar liberdade aos nossos pensamentos; uma vez que esta reforça o pensamento de "o que estamos fazendo de nossas vidas? E finalmente a última parte que podemos denominar de conclusão do poema, é a constituída pela última estrofe; nesta, o eu-lírico reforça a importância de se concretizar as ideias, tornando-as ações.

Seis estrofes compõem este poema: dois tercetos, uma sextilha, uma sétima, uma nona e uma estrofe maior com dezesseis versos. A maior parte dos versos é formada por sílabas métricas e outras irregulares, ou seja, nota-se que não há um padrão no emprego sucessivo das rimas neste poema.

Universo lexical

No poema existem expressões que para decifrá-las é necessário conhecer profundamente a obra de Alexandre O´Neill ou trabalhos a seu respeito. Por exemplo: o vocabulário "testa" no poema "Mente", pois o autor trata da vida mental; braço associa-se ao trabalho, é o transporte da ideia para o real; bolor, pão abstrato, mulher sem amor, são expressões com o mesmo significado dentro do poema, sendo que a primeira expressão representa algo que não serve pra nada, assim como o pão abstrato não alimenta e é inútil tal qual a mulher que não tem amor; o reino do Pacheco simboliza a vida no geral, na qual o reino traduz a sociedade e o Pacheco um cidadão comum; em galeria podemos comparar ao contrário da aplicação das ideias, isto é, é a própria teoria. E mais não são na prática; luzidia é um vocabulário que significa brilhante, referindo-se à mente e enfim o vocabulário besta representa a queda de Salazar. Alexandre O´Neill escreveu também poemas sensuais, como "Seios":( Texto V)

Leitura do poema

Neste belo poema Alexandre O´neill procura caracterizar de forma espetacular parte do corpo da mulher, criando, em torno dos "seios", uma atmosfera de especulações, que vão da natureza mítica à ontológica. A escolha vocabular, a partir da eleição de palavras que se aproximam uma das outras de forma inusitada, faz desse poema algo inaugural. Composto tão somente por uma única estrofe, sem rimas, mostrando que Alexandre O´neil se sente bem à vontade em produzir certos tipos de discursos que o colocam à deriva de seus contemporâneos. Muitos jogos metafóricos, muitas elipses mentais são lançados pela sucessão de imagens. Nota-se principalmente quando compara "seios" a coisas físicas ou imagináveis, servindo-se de múltiplas impressões sensoriais, para que sensações dos sentidos desemboquem na experiência da carne. O eu-lírico abusa da sinestesia, ou seja, utiliza muitas expressões associadas ao sensorial. (R. L. S.)

Trechos

TEXTO III


O amor é o amor - e depois?!/Vamos ficar os dois/ a imaginar, a imaginar?.../// O meu peito contra o teu peito,/cortando o amor, cortando o ar./Num leito/há todo o espaço para amar!///Na nossa carne estamos/sem destino, sem medo, sem pudor/e trocamos - somos um? Somos dois?/espírito e calor!///O amor é o amor - e depois?

TEXTO IV

Às duas por três nascemos,/às duas por três morremos./E a vida? Não a vivemos./// Querer viver(deixar-nos rir!)/seria muito exigir.../Vida mental? Com certeza!/Vida por detrás da testa/seria tudo o que nos resta?/Uma ideia é uma ideia/- e até parece nossa!-/mas quem viu uma andorinha/ a puxar uma carroça?/// Se a ideia não se der/ O braço que ela pedir,/a ideia por melhor/ que seja ou queira ser,/não será mais que bolor,/pão abstrato ou mulher/sem amor!///Às duas por três nascemos,/às duas por três morremos./E a vida? Não a vivemos.///Neste reino de Pacheco/-do era todo testa,/do que já nada dizia,/e só sorria, sorria,/do que nunca disse nada/a não ser para a galeria/que também não o ouvia,/do que, por detrás da testa,/tinha a testa luzidia,/neste reino de Pacheco,/ò meus senhores que nos resta/senão ir aos maus costumes,/às redundâncias, bem-pensâncias,/com alfinetes e lumes,/fazer rebentar a besta,/pô-las de pernas pro ar?///Por isso, aqui, acolá/tudo pode acontecer,/que as ideias saem fora da resta de cada qual/para que a vida não seja/só mentira, só mentira!

TEXTO V

Sei os teus seios/ Sei-os de cor./ Para a frente, para cima,/ Despontam, alegres, os teus seios./ Vitoriosos já,/ Mas não ainda triunfais./ Quem comprou os seis que são teus/ (Banal imagem) a colinas!/ Com donaire avançam ou teus seios,/ Com donaire avançam os teus seios,/Ó minha embarcação!/ Por que não há/ Padarias que em vez de pão nos deem seios/ Logo p´la manhã?/ Quantas vezes/ Interrogastes, ao espelho, os seios?/ Tão tolos os teus seios!/ Seios pasmados, seios lorpas, seios/ Como barrigas de glutões!/ Seios decrépitos e no entanto belos/ Como o que já viveu e fez viver!/ Seios inacessíveis e tão altos/ Como um orgulho que há-de rebentar/ Em desesperadas, quarentonas lágrimas.../ Seios fortes como os da Liberdade/ - Delacroix -guiando o povo./ Seios que vão à escola p´ra de lá saírem/ Direitinhos p´ra casa.../ Seios que deram o bom leite da vida/ A vorazes folhos alheios!/ Diz-se rijo dum seio que, vencido, / Acaba por vencer../ O amor excessivo dum poeta:/ E hei de mandar fazer um almanaque/ Na pele encadernado do teu seio! (Gomes Leal)/ Retirar-me para uns seios que me esperam/ Há tantos anos, fielmente, na província!/ Arrulho de pequenos seios/ No peitoral de uma janela / Aberta sobre a vida. [...]

SAIBA MAIS

GOLDSTEIN,
Norma. Verso, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 2002

GUIRAUD, Pierre. A estilística. São Paulo: Mestre Jou, 1070

HUXLET, Francis. O sagrado e o profano. Rio de Janeiro: Primor, 1974

O´NEILL, Alexandre. Poemas com endereço. Lisboa: Morais, 1962

PAZ, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976

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