LIVRO

Arte feminina

00:57 · 02.09.2008
Artista visual, Ana Valeska Maia busca os traços distintivos do feminino em seu livro “Pulsão Irrefreável”, que será lançado hoje, no Sesc Senac Iracema

Constatar que as mulheres têm ocupado, cada vez mais e com mais intensidade, espaços a elas antes vetados, é tarefa que não requer capacidades extraordinárias do observador. Tarefa bem mais difícil, urgente e necessária, é identificar os significados deste fluxo e a natureza desta ocupação. “Pulsão Irrefreável: arte contemporânea no feminino” busca responder às questões que daí emergem, concentrando-se no terreno das artes. O livro, de autoria da artista visual e advogada Ana Valeska Maia, será lançado às 19 horas, no Sesc Senac Iracema.

Ocupação parecer ser também a chave para compreender as motivações da autora. Advogada e professora de direito, Ana Valeska se fez artista visual e a arte seu objeto de pesquisa. “Eu já estava advogando há cinco anos e não me sentia realizada com a profissão. Uma pessoa me mostrou abertas as inscrições para o vestibular de uma graduação em artes plásticas. Me escrevi de imediato e ingressei na faculdade, onde surgiu meu interesse pelo tema. Durante o curso, ingressei no mestrado em políticas públicas”, conta Ana Valeska.

Destas duas pesquisas, nasceu o livro. “Uma coisa se juntou a outra: a análise daquela linguagem e uma análise política. No livro, tem um pouco dos dois trabalhos. O que era mais pesado, tirei, para que a leitura ficasse mais leve, com um tratamento sempre em primeira pessoa, mais intimista”, explica a autora.

Intuição

“Pulsão irrefreável” nasceu de uma intuição da autora, logo transformado em dúvida condutora da investigação acadêmica. “Quando olhava catálogos, visitava exposições, percebi que os trabalhos que mais me chamavam a atenção eram realizados por mulheres. Muitas vezes, eu só ia conhecer a autoria depois de ter visto a obra. Aquela dúvida ficou: ‘será que existe uma diferença, algo que individualiza estes trabalhos?’”, relembra.

Para responder esta investigação, Ana Valeska foi a campo, se aprofundando no contato com as obras e aquelas mulheres que as produziam. A arte contemporânea manifesta em Fortaleza serviu-lhe de laboratório. Bia Cordovil, Cecília Bedê, Jussara Correia, Maíra Ortins, Meire Guerra, Milena Travassos, Simone Barreto e Waléria Américo foram suas interlocutoras na pesquisa.

Para Ana Valeska Maia, a diferença intuída existe sim, sendo possível reconhecer seus traços e compreender como ele se forma. “Eu verificava que existia uma força, uma diferença. Identificar como ela se manifestava foi meu objetivo. No decorrer da pesquisa, concluí que ela vem de uma trajetória histórica, que é permeada por relações de poder. É preciso se considerar que há um contexto de séculos de opressão das mulheres. Tudo que ficou refreado em todo este tempo, foi trabalhado nestas linguagens artísticas”, argumenta a pesquisadora. Segundo ela, mesmo nas artistas contemporâneas, da mesma geração que a sua, estas marcas são visíveis.

“Talvez não tenhamos sofrido na pele toda essa opressão, mas herdamos esta trajetória de abertura. Tudo fica gravado no nosso corpo”, defende. No livro, Ana Valeska relembra alguns passos desta trajetória, quando a ousadia feminina já se constituía no próprio ato de se expressar por meio de linguagens a ela proibidas.

Esta proibição proporcional a constituição do que Heloísa Buarque de Holanda, citada pela autora, chamou de “capital diferencial”. “Trata-se de toda esta miscelânea de possibilidades que foi refreada e que agora vem em jorro. Não é o feminino do estereótipo, das flores, das naturezas mortas, mas da força, da mulher selvagem”, detalha Ana Valeska Maia. “Você vê elementos próprios do estereótipo do universo feminino - como as flores, as lembranças, as imagens, as histórias de amor - serem ressignificados na arte contemporânea. Estes mesmos elementos reaparecem, mas não são colocados de forma superficial, mas com muita profundidade. Eles remetem a um aspecto mítico, visceral”, define.

“As mulheres estão ocupando os espaços com uma fome grande. Fome herdada para suprir ausências históricas. No entanto, é preciso pensar a forma como estes espaços estão sendo ocupados. Existe igualdade de direitos e condições? Não é uma lei que muda isso, é cultural, é um trabalho muito difícil. As coisas, no entanto, estão se transformando muito rapidamente”, questiona a artista Ana Valeska Maia. Ko

ARTES

"Pulsão Irrefreável: arte contemporânea no feminino"

Ana Valeska Maia
R$ 25
208 páginas
2008
Expressão Gráfica

Lançamento do livro ´Pulsão irrefreável´ e abertura da exposição homônima, reunindo obras das artistas Ana Cristina Mendes, Jacqueline Medeiros, Cláudia Sampaio e Maíra Ortins. A obra de Ana Valeska ainda será apresentada em uma palestra da professora Marcia Sucupira e em performance de Laís Teixeira. Às 19 horas, no Sesc Senac Iracema (Rua Boris, 90 C). Contato: (85) 3452.1242

DELLANO RIOS
Repórter

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