Política pública

Arte de preservar a memória

Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho consolida-se como espaço de imersão e cuidado ao patrimônio

Sede da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho Prédio simboliza a relevância histórica do bairro Jacarecanga ( REPRODUÇÃO/SITE/SECULT )
00:00 · 14.06.2018 / atualizado às 16:04 por Antonio Laudenir - Repórter

Outrora sinônimo de status para a elite financeira de Fortaleza nas primeiras décadas do século XX, o bairro Jacarecanga mantém-se pulsante até hoje como um pedaço da memória e da formação da capital cearense. As poucas edificações desta era que ainda resistem a fatores como tempo ou especulação imobiliária conseguem preservar o charme da região.

Felizmente, um prédio em específico prossegue como território de cuidado não apenas com o passado. Sim, a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho (EAOTPS) projeta-se também como um influenciador para o futuro.

Em conjunto com Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) e Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ), a Escola integra as iniciativas culturais gerenciadas pelo Instituto de Arte e Cultura do Ceará (IACC). Com programação focada em uma linha específica de atuação - no caso, a restauração e conservação do patrimônio cultural material - a EAOTPS acaba de encerrar as inscrições de mais uma atividade formativa.

Integrando o Programa de Formação Básica da Escola, o curso "Conservação e Restauração de Telas" atenderá 15 alunos e contará com um total de 328 horas-aula. Este serviço é destinado prioritariamente a alunos egressos de outras cursos de conservação e restauração em tela e escultura e a pessoas que possuam habilidades artísticas comprovadas com mais de 18 anos.

O intuito é oferecer uma qualificação continuada que oportunize aos interessados conhecer e aplicar técnicas específicas na área da conservação e restauração. Para construir esta estratégia, o ponto de partida da atual turma será o acervo o da pintora cearense Sinhá D'Amora (1906-2002).

Em termos mais técnicos, a formação promete desenvolver procedimentos de higienização a partir dos componentes da tela, como chassi, tecido e base, bem como o método de reentelamento, produção da base e da pintura artística.

Serão disponibilizados aos alunos lanche diário, vale-transporte (para aqueles que não residam próximo à EAOTPS) e material didático necessário ao desenvolvimento das atividades.

Parcerias

Para a coordenadora geral da Escola, Marley Uchoa, a proposta de todos os cursos é promover uma ação que gere intervenções em algum bem da cidade ou do Estado, aliando elementos teóricos e práticos.

Ao todo, os alunos selecionados trabalharão diretamente sobre 14 telas da pintora cearense, que integram o acervo da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor). Além da secretaria municipal, a atividade conta com parceria do Instituo Iracema, responsável por subsidiar a formação.

A Escola, por sua vez, entra com a orientação técnica e pedagógica. No fim do curso, previsto para terminar em outubro deste ano, uma exposição com as obras restauradas será aberta ao público.

"Como somos um equipamento público, queremos servir à população. O mais importante é resgatar essas obras que estavam se deteriorando por falta de bom condicionamento. Com essa nova estruturação, as pessoas vão ter entendimento de uma história importantíssima do início do século", afirma Uchoa.

"D'Amora foi uma mulher à frente de seu tempo. Numa época em que as mulheres eram submetidas apenas à realidade do serviço doméstico ela foi além, estudou e evoluiu. Tempos depois doou estas obras para Fortaleza e a cidade não fazer uso próprio desse bem é uma falha. Vamos dar essa resposta a ela", finaliza a coordenadora.

Natural de Lavras da Mangabeira, a pintora e escultora Fideralina Correia de Amora Maciel, a Sinhá D'Amora, estudou na Escola Nacional de Belas Artes (Enba). Transfere-se para o Velho Mundo, onde ingressa na Accademia di Belle Arti di Firenze, Itália e na Académie de La Grande Chaumière, Paris, França.

De volta ao Brasil, realizou a primeira exposição individual em 1943, no salão nobre do Palace Hotel, Rio de Janeiro. Fundou também o curso de restauração "Maria de Lourdes Guimarães", da Sociedade Brasileira de Belas Artes e o Museu do Crato.

Em homenagem à realizadora, foi criado em 2002 o Memorial Sinhá D'Amora, instalado no Centro de Referência do Professor (CRP), no Centro, e depois desativado quando o prédio passou a abrigar o Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB).

Desde então sabia-se apenas que o acervo estava sob guarda da Prefeitura de Fortaleza, mas em lugar e condições não divulgados.

Em matérias anteriores, a Secultfor sempre afirmava que a coleção estava em processo de restauro e higienização, sem, no entanto, precisar datas para a finalização do trabalho.

Em abril deste ano, uma das telas do acervo passou a integrar a exposição permanente no Memorial do Paço, inaugurado recentemente no Palácio João Brígido, conhecido como Paço Municipal.

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