Ensaio

Arte, cultura e religiosidade

00:00 · 29.06.2014
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Os músicos que tocam em frente a esta casa cumprem certas etapas de um ritual: às vezes, a casa escolhida corresponde ao fato de que, por conta de determinada necessidade, o dono está comprometido em alguma promessa. ( Crédito: divulgação )

As festas de renovação de santo trazem em si um sincretismo religioso típico do catolicismo popular presente no nordeste brasileiro. Transitando entre as fronteiras do sagrado e do profano, durante a realização da festa são expostos diferentes aspectos que sintetizam a história, o comportamento e a identidade das categorias subalternas através do desvio das regras canônicas da Igreja.

Desta forma, a performance e a identidade das bandas cabaçais possuem uma íntima relação com o ritual, através dos híbridos culturais estabelecidos historicamente bem como pelas configurações socioculturais.

Este ritual não pode ser definido de modo rígido e definitivo. Ao contrário, precisa ser etnografado, ou seja, apreendido em campo pelo pesquisador junto ao grupo estudado. Significa ao pesquisador se colocar na perspectiva do estudado e ser capaz de apreender o que os nativos estão indicando como sendo único, excepcional, crítico, diferente.

Do ritual

A festa de renovação de santo é dedicada ao santo protetor da casa ou de algum membro devido a alguma promessa realizada, mas na grande maioria dos casos as renovações são dedicadas ao Sagrado Coração de Jesus. Para tentar compreender e analisar de uma melhor forma o evento e a performance da banda a dividi em sete partes.

A noite que antecedeu a festa considerei como sendo a primeira parte. Foi o momento no qual cheguei ao sítio de Dona Maria, viúva do finado Clemente, antigo mestre da Padre Cícero. As mulheres da casa cuidavam da cozinha enquanto os homens conversavam, comiam e alguns fumavam. Foi importante para que pudesse me ambientar ao local e conhecer as pessoas já que estaria no dia seguinte munido de equipamentos eletrônicos colhendo informações, algo que podia os intimidar.

O segundo momento, agora festa de fato, iniciou-se como tradicionalmente ao raiar do dia, a chamada alvorada, com a banda cabaçal tocando seus ritmos e com uma salva de fogos. Neste momento inicial apenas os membros da banda e alguns moradores da casa participam devido ao seu horário de início pontualmente às cinco horas da manhã.

Os músicos posicionam-se de frente a casa tocando a Marcha da Chegada, tradicional peça musical que dá início a qualquer apresentação do grupo. Após esse momento outras músicas vão dando sequência ao ritual e enquanto tocam realizam danças circulares que remontam a ritos ancestrais indígenas e só depois adentram a residência. Na sala da casa já está posto um altar agrupando um conjunto de imagens de santos juntamente com a imagem de Padre Cícero. Abaixo deste conjunto de imagens há um oratório com estatuetas de outros santos da preferência do anfitrião e acima imagens do Sagrado Coração de Jesus.

A performance

A banda cabaçal toca seus instrumentos curvando-se diante do altar em coreografias e movimentos cerimoniais, ou seja, não há o comportamento enérgico ou virtuosístico que ocorrem em palcos ou feiras. Durante a manhã repetiram-se três vezes o mesmo ritual, mas agora sem a salva de fogos, e durante a tarde mais uma. Entre um ou outro momento como este descrito acima, os músicos tocam aguardando as refeições e aproveitam para pitar um cigarro artesanal de fumo e trocar conversa. É neste momento que ocorrem um dos processos de ensino e aprendizagem e também ensaios. Durante a festa, pude observar a troca de instrumentos entre os membros do grupo. O zabumbeiro trocava com o caixeiro, ou com um dos pifes, enquanto o pifeiro assumia os pratos. Esta troca torna-se importante, pois é necessário que os membros dominem todos os instrumentos da banda. Caso alguém esteja impossibilitado de tocar outro poderá substituí-lo sem causar problemas a estrutura do grupo. Além disso, os candidatos a integrantes têm a oportunidade de tocar com o grupo, pois geralmente não há ensaios.

Assim, percebe-se uma mútua relação entre o ritual da renovação e a continuidade da banda cabaçal. Se por um lado a banda cabaçal é o atrativo da festa responsável pela animação e arte, por outro, o ambiente proporcionado pelo evento influi significativamente na sobrevivência e na qualidade da prática musical.

Desta forma, segue-se até o início da noite (geralmente por volta das dezoito horas) quando inicia-se a reza anunciada com uma salva de fogos de artifício. Esta parte da festa tem aproximadamente 30 minutos e são intercaladas orações, músicas católicas e hinos tradicionais que são cantados a capela pelos participantes da festa, em sua grande maioria senhoras. Após o término da reza, a banda cabaçal sela a cerimônia com mais uma performance semelhante a que deu início à festa pela manhã. Após a representação os músicos da banda cabaçal se despedem e partem em retirada ainda tocando seus instrumentos. Fogos de artifício são usados novamente marcando o fim da festa. Aos poucos, os convidados se despedem, permanecendo os mais conhecidos e familiares da casa. Alguns convidados ainda levam para casa alimentos e bebidas que sobraram da comemoração.

Considerações Finais

As bandas de pífano carregam em si essa dualidade, ao mesmo tempo que festejam com hinos dedicados a santos dentro de uma manifestação religiosa, também podem ser encontrados em palcos e festas ditas profanas.

Apesar de muitas modificações externas como urbanização crescente na região, diminuição da prática do catolicismo popular, afastamento da Igreja e de suas datas comemorativas como festas de padroeiros, novenas e procissões, a prática da renovação de santo ainda mantém-se marcante em algumas regiões mais afastadas dos centros urbanos. E é lá onde as bandas cabaças podem apresentar-se da maneira que mais gostam, exercendo sua fé e reforçando uma prática secular deixada por gerações passadas.

SAIBA MAIS

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 9. Ed. São Paulo: Global, 2000.
CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: EDUSC, 1999.
FÁVERO, Osmar (Org.). Cultura popular e educação popular: memória dos anos 60. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1983.

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