Arte Cearense

00:00 · 13.04.2014

Pintura de Mano Alencar

Preto no branco

Mano Alencar nasceu na cidade de Juazeiro do Norte, Região do Cariri. Dedica-se à pintura, ao desenho, à escultura, palmilhando, ainda, as artes da escrita, em especial os textos poéticos. Sua arte é uma busca incessante de novas formas de expressão

Contos de Antônio Luciano Bonfim

O Inexistente

Passava por entre as pessoas como um vulto. Viam algo por um instante... Depois mais nada. O vulto em questão tinha duas pernas, dois braços e uma cabeça. Era humano. Vestia-se de forma casual, alguém comum, mas tinha uma estranha peculiaridade, ninguém se lembrava da sua existência.

Era um eterno passante de primeira vista, estando por todos os lugares sem deixar a mais vaga lembrança. Ele nunca soube como isso começou, mas deixou de se importar depois de um longo tempo.

Um dia, começou a esquecer do seu rosto, da sua voz, dos seus cacoetes... Indo desaparecer pouco a pouco. Não sentia que estava morrendo, era algo muito pior, estava sendo apagado do papel pela borracha.

O Som Ausente

O céu encontrava-se em uma densa escuridão que engolia o brilho das estrelas, o som crepitante da madeira queimada predominava na floresta em seu silêncio de luto. Em um entulho de cinzas e de galhos retorcidos, emerge o peba, com os olhinhos arregalados diante do fim, caminhando no meio da desolação, sem saber se era dia ou se era noite, à procura de água.

Onde havia água só existia uma lama negra e espessa como éter. Em passos curtos, o peba percorria o vale ausente, vê, ao longe, ossos de temíveis predadores de outro tempo que não pareciam existir, as regras, daquele mundo, foram apagadas em um clarão. Farejava, tremendo o focinho, os ossos descarnados, mordiscando pedaços cremados.

A terra perdera as suas emoções, só no peba residia o instinto de viver. Percorria seus passinhos sobre colossos caídos, passando por entre seres de metal retorcido, sem rumo na vastidão do vazio. O pequeno animal tremia pela ausência de tudo, nunca ouvira tão terrível silêncio...

A Quinta Tentativa

Os olhos viam e iam ao pisca-pisca dos faróis. Uma noite densa de chuva o evocava dos seus sonhos etílicos perdidos em terras estranhas no seu calhambeque. A sua longevidade era um porre do qual ele queria se livrar a muito tempo, a ausência da dor o agonizava e a solidão o desumanizava a cada século, testemunhando maravilhas e horrores de novas humanidades.

Estava cansado de ver... De ouvir... A fada verde fazia-o esquecer da Árvore do Mundo que ele abandonara a tempos esquecidos, desde que solvera a seiva... "Nós estamos certos! Vocês estão errados!" O brado que ribombava em sua mente na boca dos tacanhos homens formigas.

Tenta alcançar a garrafa, pegando-a desajeitadamente, e a joga fora e acelera abruptamente. A Atenção desaparecia, havia apenas os olhos fixados na curva do abismo. Capotaria floresta adentro até explodir como previa. O carro se lança no ar... Essa era a quinta tentativa neste século.

Sobre o autor

Antônio Luciano Bonfim dedica-se à ficção, à poesia e ao ensaio sobre a arte literária

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