festival Jazz & Blues

Apoteose do som

19ª edição do festival Jazz & Blues mantém o formato já tradicional e resiste dentro do calendário cultural

00:00 · 14.02.2018 por Antonio Laudenir - Repórter
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O sanfoneiro Waldonys abriu a primeira noite do Festival, no sábado ( Fotos: JL Rosa )

Caminhar por Guaramiranga, em pleno período carnavalesco, representa um passeio no qual a música surge como referencial máximo. A cidade, localizada no Maciço de Baturité, sediou mais uma edição do Festival jazz & Blues, e, para os amantes das raízes que envolve esses dois gêneros, a jornada de quatro dias de evento prossegue como marco cativo no calendário.

Realizado entre os dias 10 e 13 de fevereiro (e, mais tarde, nos dias 15 e 16, em Fortaleza), a 19ª edição do evento denota o suor de um grande contingente de profissionais envolvidos na produção. Ao todo, as atrações incluíram shows, ensaios abertos, debates e workshops. Agregando artistas consagrados, figuras já conhecidas de jornadas anteriores do Festival e apostas da nova geração, o evento festejou com o público.

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Se o sábado foi de chuva - que nem de longe afastou a animação dos presentes - o sol deu as caras nos dias seguintes, e quase que organicamente o evento foi revelando um espírito todo especial, mediado pela beleza das muitas expressões musicais presentes. À noite, os shows principais lotaram a Cidade Jazz & Blues - erguida na rua principal (a cerca de 600 metros da Praça do Teatro Rachel de Queiroz), exclusivamente para receber plateia e atrações convidadas.

O recado foi dado logo no primeiro dia, com ingressos esgotados, alegria e a certeza de testemunhar apresentações únicas. A movimentação teve início por volta das 10h, com a blitz ecológica responsável por dar boas-vindas aos turistas que chegavam ao município. Às 11h, no espaço Café no Tom, Juarez Moreira trocou experiências e travou um diálogo direto com espectadores. Atravessando a tarde, o clima festivo incluía apresentações de blocos e shows na praça ao lado da Prefeitura.

Destaques

A movimentação de técnicos sinalizava os últimos retoques no som. Após o querido "Ensaio Aberto", realizado pontualmente às 16h30 e que contou com Waldonys e Sexteto de Jazz da Big Band Unifor, o sábado estava livre para ser iluminado pelas atrações.

Executando temas como "Respeita Januário", imortalizado na voz do mestre Luiz Gonzaga (1912-1989), o sanfoneiro brindou a plateia com um pouco do espetáculo planejado para 21h.

Por volta das 18h, os ingressos já haviam acabado. Quem esteve presente aprovou a dobradinha entre o músico e o sexteto, com direito a versões de clássicos do forró e "causos" narrados por Waldonys sobre sua carreira.

Verdadeiro mestre da cultura musical do Ceará e do Brasil, José Felipe da Silva, o Macaúba do Bandolim, ganhou uma homenagem nesta edição do Festival, em reconhecimento à sua história de virtuosismo e à inestimável contribuição a várias gerações. São nada menos que 65 anos de dedicação ao instrumento, que aprendeu a tocar sozinho ainda criança.

O talento de Macaúba, acompanhado de competentes colegas de ofício - entre eles seu filho Marinaldo (também no bandolim) - emocionou o público tanto na apresentação aberta durante o dia quanto no show da noite.

A sequência teve ainda Davi Duarte e Duo Estro Cuba, numa atmosfera jazzy e apresentação explosiva de Arismar do Espírito Santo.

No domingo, Filó Machado fez sua estreia no Jazz & Blues, confirmando toda a fértil aura sonora que reside em sua carreira. Com interpretações arrepiantes, ele mostrou o quanto é um gigante de voz profunda, capaz de carregar, ao mesmo tempo, a leveza e o peso da vida.

Todas as manifestações de carinho por parte do público foram justas e coroam a trajetória deste realizador.

Considerado uma das atrações mais aguardadas do evento, Dori Caymmi entrou às 21h, entregando uma cativante e elogiada apresentação, na qual esbanjou toda a beleza da voz grave e inconfundível, assinatura que acompanha o sangue desta família.

Ao lado dos virtuosos Itamar Assiere (piano), Jefferson Lescowich (contrabaixo) e Ricardo Costa (bateria), a plateia testemunhou melodias consagradas de compositores como Vinícus de Moraes, Tom Jobim e Dorival Caymmi, pai de Dori.

Fim de noite

Vale lembrar ainda a faixa Jam Session, que encerrou todas as noites com nomes do cenário nordestino em uma grande comemoração com o público. No sábado, Marília Lima mandou o recado com o concerto "Rosa Negra", inspirado em grandes divas da música universal, como Dalva de Oliveira, Etta James, Maysa e Aretha Franklin.

No dia seguinte, a lenda Eric Clapton foi celebrada ainda em vida, com o show Tributo a Eric Clapton, capitaneado pelo guitarrista Rafael Balboa.

Já na segunda, o Festival Jazz & Blues apresentou o show Blues do Nordeste. A proposta é ousada e reúne quatro virtuosos guitarristas, representantes dessa efervescente produção musical: André de Sousa (Piauí), Gustavo Cocentino (Rio Grande do Norte), Roberto Lessa (Ceará) e Rodrigo Morcego (Pernambuco). Cada um deles, um expoente em seu Estado e um frontman por natureza. Neste novo espetáculo, unem forças e entregam uma forma brasileira de vivenciar o blues.

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