LITERATURA

Ao alcance de todos

00:15 · 21.09.2008
( THIAGO GASPAR )
Histórias de amor, sedução, intriga. Um mundo fabuloso, de amores impossíveis, mas de final feliz. O leitor vira as páginas desse tipo de livro sem piscar

Eles são impressos em papel-jornal, formato de bolso. Têm menos de 200 páginas e são acessíveis a um universo de leitores ignorados pela grandes editoras, com índices de venda bem maiores do que os de muitas publicações aplaudidas pela crítica especializada e pela grande imprensa. Os leitores e as leitoras de “romances de banca de revista” consomem essas histórias avidamente e colocam seus autores no panteão das celebridades.

Sem lançar mão de juízo de valor, nem analisar o conteúdo, esse tipo de publicação, na verdade, ainda pontifica com sucesso no Brasil, em pleno século XXI. E o público não é pequeno. Pelo contrário. Marginalizados pela academia como subliteratura ou paraliteratura, os “romances sentimentais” têm um público fiel e dedicado. Tanto que a Editora Nova Cultural vem mantendo a aposta nesse tipo de literatura. Só para lembrar: a Nova Cultural originou-se da Abril Cultural, empresa fundada em 1966, pelo empresário Victor Civita. O empresário italiano ganhou muito dinheiro, quando chegou ao Brasil, publicando as revistas da Disney, a partir do Tio Patinhas. Assim, a Nova Cultural lançou em fascículos “A Bíblia mais Bela do Mundo”, título que resultou em extraordinário sucesso de vendas. Obra luxuosa, com mais de 3000 ilustrações, marcou o início da popularização das edições culturais no Brasil.

Após o sucesso da publicação, em 1966 foi lançada a enciclopédia Conhecer, também em fascículos. Organizada por temas, tornou-se obra indispensável para pesquisas escolares. Recorde absoluto de vendas, em 30 anos teve 13 edições, com mais de 100 milhões de exemplares vendidos.

Voltando para o “romance de banca de revista“, desde o lançamento do primeiro fascículo a Nova Cultural já produziu, publicou e vendeu em bancas mais de 300 séries. Para se ter uma idéia, a série “Romances” vende no Brasil 3 milhões de exemplares anualmente. As narrativas são simples, mas recheadas de histórias de amor, paixões avalassadoras, tramas de época. Esse tipo de publicação é o entrentenimento de milhares de mulheres no Brasil. De acordo com a editora, são mais de 25 mil pontos de distribuição em todo o País.

Publicadadas desde 1978, as séries acompanham gerações e suas respectivas mudanças de hábitos e cultura. Os livros chegam às mãos de leitoras de diversas faixas etárias, dos mais diversos níveis sociais. Segundo a Nova Cultural, são leitoras assíduas, que consomem mensalmente, em média, quatro livros - número muito acima do índice de leitura do Brasil.

Os romances de escritoras internacionais estão divididos em seis séries: ´Júlia´ (romances históricos); ´Sabrina´ (romances contemporâneos); ´Clássicos Históricos Especiais´ (romances históricos até o século XVIII); ´Clássicos Históricos´ (romances históricos do século XIX); ´Bianca´ (romances com um toque de magia e misticismo) e ´Bestseller´ (livros de autores de best-sellers do New York Times, em formato maior - semelhante aos romances vendidos em livrarias). Todos por um preço bem abaixo dos praticados pela indústria editorial - entre R$ 6,90 e R$ 12,45.

Para a editora Andréa Ricceli, mesmo sendo uma literatura de entretenimento, associada a momentos de lazer, “os romances são uma porta de entrada para o mundo da leitura”. Segundo ela, o preço e o fácil acesso acabam sendo fundamentais para que mais pessoas possam desfrutar desse gênero de literatura.

— Num mundo onde tudo está virando virtual e televisivo, a permanência do sucesso dos livros românticos por três décadas consecutivas não deve ser deixada de lado. E é a prova de como as mulheres ainda valorizam histórias que lhe permitam sonhar, utilizar sua capacidade criativa, para trazer um pouco mais de leveza para o mundo.

Assim, independentemente de possíveis críticas, essas publicações demonstram que o brasileiro não é, ao contrário do que muitos propagam, refratário ao livro. E deixam entrever que, se as grandes editoras se interessassem em publicar livros mais baratos, no mesmo formato, só que de autores fundamentais da nossa literatura, certamente o leitor brasileiro agradeceria. E a máxima do jornalista gaúcho Juremir Machado, segundo a qual livro só vende no Brasil se publicado pelas editoras Cia das Letras e Objetiva em edições de luxo com cobertura da Folha de São Paulo, pode cair por terra.

Juremir aponta como livro de sucesso o que atinge o patamar dos 3 mil títulos vendidos. Um número, ainda, festejado pelas editoras e livreiros. Mas muito pequeno para um País continental como o Brasil, com uma população que chega próximo a 200 milhões de pessoas. É preciso olhar com mais seriedade para os “romances de banca de revista”.

JOSÉ ANDERSON SANDES
Editor


© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.