30 anos de saudade

Aniversário de morte vai render lançamentos e reedições

03:40 · 19.01.2012
Lançamentos fonográficos e literários, além de tributos musicais agitam o ano de homenagem a Elis. Entre as estreias, destaque para os boxes com a discografia da cantora e o show Viva Elis, estrelado pela filha Maria Rita
Lançamentos fonográficos e literários, além de tributos musicais agitam o ano de homenagem a Elis. Entre as estreias, destaque para os boxes com a discografia da cantora e o show Viva Elis, estrelado pela filha Maria Rita ( FOTO: AGÊNCIA O GLOBO )
A capixaba Nara Leão, adotada desde muito pequena pelo Rio de Janeiro, transitou do romantismo da Bossa Nova à força das canções de protesto
A capixaba Nara Leão, adotada desde muito pequena pelo Rio de Janeiro, transitou do romantismo da Bossa Nova à força das canções de protesto ( )
Como esperado, os 30 anos de morte de Elis Regina serão acompanhados de homenagens e inúmeros lançamentos no decorrer de 2012. Um dos "presentes" mais aguardados pelos fãs vem da gravadora Universal, que coloca nas lojas, ainda este mês, duas caixas (R$ 229, cada), com dez CDs cada uma. Como esta companhia já teve vários nomes - Philips, Phonogram e Polygram - e foi por elas que a cantora lançou a maioria dos seus discos, acredita-se que a coletânea traga registros completos feitos entre 1965 e 1978.

A primeira, "Elis 60", inclui os oito discos realizados na década de 1960, a coletânea "Pérolas raras" lançada em 2005 e o CD "Esse mundo é meu", com faixas selecionadas pelo pesquisador Rodrigo Faour, extraídas de compactos e LPs de festivais. Entre as preciosidades, Elis interpreta "Canto de Ossanha" (Vinícius de Moraes e Baden Powell) ao vivo e uma versão em francês de "A noite do meu bem" (Dolores Duran).

Seguindo a sequência, "Elis 70" traz nove discos de carreira - entre eles, os clássicos "Elis & Tom" (1974) e "Falso brilhante" (1976 - além do CD duplo "No céu da vibração", com gravações desde 1969, como a inédita "Comigo é assim". Essa caixa inclui faixas importantes, como "Tiro ao Álvaro" (Adoniran Barbosa) e "Águas de março" (Tom Jobim), e compactos liberados pela Warner, casos de "Se eu quiser falar com Deus" e "Alô alô marciano".

Em ambos os boxes, há depoimentos de pessoas próximas a Elis: Jair Rodrigues, Roberto Menescal, Joyce, Luís Carlos Miele, Nelson Motta e Aldir Blanc. O mais extenso e detalhado foi registrado por Rodrigo Faour com o pianista e arranjador César Camargo Mariano, ex-marido de Elis e pai de dois dos seus filhos, os também cantores Pedro e Maria Rita.

Além das duas caixas da Universal, dois álbuns de Elis Regina ganham reedições ampliadas, com mais do que o dobro das faixas que havia nas versões originais em LP. Ainda em janeiro, os fãs uma nova versão de "Montreaux Jazz Festival", que registra a participação da cantora no festival suíço em 1979.

Esse LP, lançado em 1982, meses após sua morte, trazia apenas nove faixas. Marcelo Fróes, pesquisador responsável pela nova edição, reuniu os números apresentados por Elis naquele dia - o que resulta em um CD duplo, um deles com uma apresentação feita à tarde e outra com um show realizado à noite. Em sua versão completa, o disco de Montreux ganhou outro nome: "Um Dia" (R$ 29,90).

Já "Transversal do Tempo", foi gravado ao vivo no Rio de Janeiro, em 1978, num registro do show do álbum "Elis". A nova versão, que deve sair no segundo semestre deste ano, foi organizada pelo pesquisador Rodrigo Faour e mixada por João Marcello Bôscoli, filho de Elis. O CD duplo traz o roteiro completo do espetáculo, em dois atos, somando 25 canções, contra as 12 do primeiro LP. Com isso, surgem temas inéditos na voz dela, como "Gente", de Caetano Veloso, e "Amor à Natureza", de Paulinho da Viola.

O mercado editorial também começa a se agitar com a data. Ganha nova edição, agora pela LeYa) "Furacão Elis" (R$ 39,90), biografia lançada em 1985 pela jornalista e amiga Regina Echeverria. Há acréscimos, como um depoimento de Paulo César Pinheiro e atualização da discografia. "Furacão Elis" tem mais de 100 mil cópias vendidas, mas está longe de ser unanimidade. Há relatos de entrevistados que não gostaram de como suas falas foram editadas e a família da cantora se mostrou insatisfeita com a narrativa do fim da vida da cantora.

Para os insatisfeitos, há a possibilidade de esperar o trabalho do jornalista Júlio Maria, que prepara para agosto uma biografia encomendada por João Marcello Bôscoli, filho mais velho da cantora. O livro sairá pela Masterbooks, editora da apresentadora Eliana, esposa de João Marcello, que garante que não será uma publicação chapa-branca.

Show e exposição

Após muita hesitação, pela primeira vez a filha Maria Rita irá se dedicar ao repertório de Elis Regina. Em março, ela inicia a série de shows "Viva Elis", apenas com canções consagradas na voz da mãe. A primeira apresentação acontecerá no dia 17 de março, no parque do Ibirapuera em São Paulo. Por enquanto, estão confirmados shows também em Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Recife - todos com entrada gratuita.

"Viva Elis" também será o nome de uma exposição multimídia sobre a cantora. Sua trajetória será contada por cerca de 500 fotos, mil reportagens de jornais e revistas, 36 horas de vídeos e diversos áudios. Um documentário de seis horas também fará parte da mostra, organizada por João Marcello Bôscoli. A partir de março, a exposição roda o país, com roteiro indefinido, mas partindo de São Paulo.

Mais informações:

Tributo a Elis, amanhã, 20h, no Sabor & Tom Restô (Rua Almeida Prado, 1013, Cocó), com Lia Veras e participações especiais de Aparecida Silvino, Edmar Gonçalves, Glairton Santiago, Natércia Benevides, Marcos Lessa e Rebeca Câmara. Couvert artístico: R$ 5 por pessoa.

Contato: (85) 3032.4996/97

Show em tributo aos 30 anos sem Elis Regina, hoje, 21h, no Acervo Imaginário (Rua José Avelino, 226, Centro), com a cantora Lorena Nunes. Ingressos: R$ 15.

Contato: (85) 3221.4894

MÔNICA LUCAS
Especial para o Caderno 3

Na mesma data, nascia a "Musa da Bossa Nova"

Além de Elis Regina, uma outra diva da música popular brasileira pode ser lembrada em um 19 de janeiro, não por sua partida, mas por sua chegada. Em 19 de janeiro de 1942, há 70 anos, dava-se boas vindas a Nara Leão, a capixaba descendente de italianos que logo se tornaria a "Musa da Bossa Nova", título a ela creditado pelo cronista Sérgio Porto.

Primeiros acordes

Com apenas um ano de idade sua família se mudou para o Rio de Janeiro, onde morou por toda a vida. Ainda muito jovem, aos 14 anos, desdenhou do acordeon, instrumento da moda e teve aulas de violão na academia de Roberto Menescal e Carlos Lyra, em Copacabana.

E foi naquele bairro, no apartamento dos pais da cantora, que nasceu a Bossa Nova, em reuniões das quais participavam, além dos dois professores, Sérgio Mendes, João Gilberto e seu então namorado, Ronaldo Bôscoli. A turma da praia estava cansada de ouvir as mesmas canções e resolveu criar as suas próprias. Como todo movimento, eles precisavam de uma musa inspiradora e logo Nara se tornaria este nome. O romance com o líder da bossa, Roberto Bôscoli, no entanto, não foram apenas flores e acordes ao violão.

O relacionamento, aliás, acabou entrando para a lista de marcos dos bastidores da história da música brasileira, já que o namoro teve fim com a descoberta de que Bôscoli a havia traído com a cantora Maysa (protagonista de várias idas e vindas amorosas), durante uma turnê em Buenos Aires, no início da década de 1960.Músicas como "O Barquinho" e "Lobo Bobo" foram compostas pensando em Nara.

Sempre ao lado do eterno professor, Carlos Lyra, Nara fez sua estreia profissional, acompanhada também de Vinícius de Moraes, na comédia Pobre Menina Rica, de 1963. O namoro com o cineasta Ruy Guerra e as revoluções sociais ocorridas a partir de 1964, no entanto, foram um dos motivadores para uma mudança no estilo de Nara. Após o Regime Militar, de musa da Bossa Nova, Nara torna-se cantora de protesto, trocando farpas com militares e sendo, sobretudo, reconhecida por atuar no espetáculo musical "Opinião", ao lado de João do Vale e Zé Keti, em 1964.

Protesto

Nesse mesmo ano, Nara lança seu primeiro CD: nada de sorrisos, amor e flor, o que se escuta é o samba do morro, o resgate de grandes nomes, como Cartola e Nelson Cavaquinho. A intérprete foi a primeira cantora branca da chamada "zona sul" a fazer este tipo de valorização dos sambistas da velha guarda. Dois anos depois, Nara interpretaria "A Banda", de Chico Buarque, no Festival da Música Popular Brasileira. Fez ainda pontas no cinema, em "Quando o Carnaval Chegar", ao lado de Chico Buarque e Maria Bethânia.

Logo após o fim do relacionamento com Ronaldo Bôscoli, a cantora iniciou namoro com Ruy Guerra, com quem se casou, mas não teve filhos. O casal Isabel e Francisco são fruto do matrimônio com Cacá Diegues, também diretor de cinema, com quem se casa logo depois da separação com Ruy.

No fim dos anos 60, muda-se para Paris, na França, onde nasce Isabel. A viagem não deixa de ser um auto exílio, já que os anos de chumbo da ditadura começavam a pesar em seus ombros. Francisco, por sua vez, já é filho do Rio de Janeiro, quando a família volta a morar no Brasil.

Acometida por um tumor cerebral inoperável, com o qual sofria há 10 anos, Nara Leão falece em junho de 1989, aos 47 anos de idade. A vida de mãe e esposa, e as fortes dores de cabeça consequentes do tumor fizeram Nara optar por diminuir a frequência de shows e voltar para a universidade, cursando psicologia na PUC-RJ. A cantora capixaba foi consagrada ao emprestar sua voz doce para canções como "Garota de Ipanema", "Com açúcar, com afeto" e "Liberdade, Liberdade".

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